O primeiro debate presidencial das eleições de 2026 foi realizado na noite de domingo, 23 de agosto, em São Paulo, e entrou para a história recente como o encontro inaugural mais esvaziado desde a redemocratização. Dos seis presidenciáveis convidados, apenas três subiram ao palco: o ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado (PSD), o fundador do Movimento Brasil Livre e candidato do partido Missão, Renan Santos, e o psiquiatra e escritor Augusto Cury (Avante). O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL), líderes nas pesquisas de intenção de voto, não compareceram. O ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema (Novo) desistiu ao meio-dia do mesmo dia, por nota, depois de confirmadas as duas primeiras ausências. Os três púlpitos reservados a eles permaneceram vazios no estúdio.
A cobertura de centro relatou que os ausentes dominaram o encontro. Um levantamento contabilizou 73 menções nominais a Lula e a Flávio Bolsonaro ao longo da transmissão, 44 ao presidente e 29 ao senador, enquanto Zema foi citado apenas três vezes. Renan Santos chegou à emissora exibindo fraldas com os nomes dos dois adversários e os chamou de covardes e criminosos; dentro do estúdio, posicionou-se entre os púlpitos vazios enquanto discursava. Caiado classificou a ausência como afronta ao eleitor e propôs tornar obrigatória a presença de candidatos em debates presidenciais, ideia apoiada de imediato por Renan Santos. Cury chegou a anunciar em transmissão ao vivo que desistiria de participar, em protesto contra a ausência do presidente e contra a entrevista que ele concedeu a outra emissora no mesmo horário, mas voltou atrás minutos depois, já dentro do carro, dizendo respeitar os jornalistas.
Nas propostas, os três campos de cobertura registram o mesmo conjunto de fatos. Caiado defendeu o confisco de bens de agressores de mulheres, penas de 20 a 40 anos conforme o grau de violência, a construção de mais presídios de segurança máxima e o enquadramento de facções criminosas como terrorismo, além de apresentar a gestão de Goiás como modelo em educação. Renan Santos propôs retomar o método fônico de alfabetização, criar uma Lei de Responsabilidade Gerencial que condicione repasses federais a metas de aprendizagem e determinar intervenção federal em estados que não aderirem ao combate ao crime organizado. Augusto Cury priorizou saúde mental nas escolas, a revisão das diretrizes do Ministério da Educação e a divisão do BNDES em dois braços, um para grandes empresas e outro para pequenas e microempresas. Uma checagem publicada durante a transmissão considerou verdadeiras as afirmações sobre a alta rejeição dos dois líderes e sobre os casos de feminicídio registrados em 2025, e apontou falta de contexto ou insustentabilidade nos números citados a respeito de aprendizado em matemática, de pessoas neurodivergentes e da parcela do território dominada por facções.
As divergências aparecem no enquadramento. Veículos de esquerda destacaram o teor das ofensas do candidato do Missão, que atingiram também a primeira-dama Rosângela da Silva e a deputada Erika Hilton (PSOL), acolheram a justificativa da campanha do presidente de que faltavam condições de igualdade diante de cinco adversários e lembraram que o senador ainda não esclareceu o pedido de recursos ao dono do Banco Master. Veículos de direita enfatizaram o custo eleitoral das faltas e o desempenho de quem foi ao palco, apresentando uma dinâmica qualitativa com doze eleitores na qual apoiadoras do senador migraram para Caiado, elogiado por experiência e por propostas de segurança pública, enquanto os eleitores do presidente permaneceram fiéis. A cobertura de centro concentrou-se na cronologia da noite, nas regras da Lei das Eleições que definem quem precisa ser convidado, na checagem dos dados e na escuta de cientistas políticos com avaliações divergentes sobre se o debate ainda informa o eleitor quando os dois primeiros colocados não vão.
O que ainda não se sabe é se a noite terá efeito mensurável na disputa. Nenhuma pesquisa registrada posterior ao encontro havia sido divulgada até a publicação das reportagens, e as avaliações sobre quem se beneficiou vêm de painéis sem valor estatístico e de leituras de analistas. Também não está definido se Lula e Flávio Bolsonaro comparecerão aos próximos encontros marcados antes do primeiro turno, nem se a proposta de tornar obrigatória a participação em debates chegará a virar projeto formal.