Cuba restabeleceu mais de 30% do fornecimento de energia elétrica em Havana nesta terça-feira, um dia após o colapso total do sistema elétrico nacional deixar sem luz boa parte dos 9,6 milhões de habitantes da ilha. Foi o terceiro apagão nacional em seis meses e o oitavo desde o fim de 2024. Segundo a Empresa Elétrica da capital, cerca de 262 mil clientes, o equivalente a 30,4% dos consumidores de Havana, voltaram a ter energia, com prioridade para hospitais e serviços essenciais de saúde. O restabelecimento, informou a companhia, ocorre de forma gradual, à medida que as condições operacionais permitem.
A cobertura de centro, representada pela RFI, relatou os fatos de forma direta: o apagão começou ao meio-dia de segunda-feira, quando o sistema entrou em colapso, e as autoridades ainda não divulgaram a causa técnica da falha. O diretor de Eletricidade do Ministério de Minas e Energia, Lázaro Guerra, afirmou à televisão estatal que a escassez de combustível dificulta o processo de recuperação da rede. A produção de eletricidade no país depende principalmente de sete usinas termelétricas obsoletas, algumas em operação há mais de 40 anos, além de geradores de emergência abastecidos com diesel importado. A principal delas, a usina Antonio Guiteras, está paralisada há dias e já registrou mais de 15 interrupções no ano.
Os dois lados da cobertura convergem sobre os fatos centrais: o número de apagões, o estado precário da infraestrutura elétrica e o pano de fundo de uma grave crise econômica, marcada pela escassez de alimentos e medicamentos e pela inflação elevada. Também há consenso de que os apagões se intensificaram desde que o governo de Donald Trump interrompeu os envios de petróleo da Venezuela, principal fornecedora da ilha, e ameaçou sancionar países que comercializem combustível com Havana.
As divergências aparecem no enquadramento. Veículos de esquerda, como a CartaCapital, que republicou o despacho da agência AFP, deram destaque às palavras mais duras do governo cubano: o presidente Miguel Díaz-Canel acusou Washington de tentar induzir uma explosão social por asfixia ao bloquear o acesso a combustíveis, e falou em bloqueio energético genocida. Essa leitura enfatiza o custo humano das sanções e a responsabilidade externa pela crise, com depoimentos de moradores como a trabalhadora autônoma Meybol Font, que descreveu a angústia de viver com poucas horas de energia por dia. Uma leitura de direita, embora sem veículo desse campo no material analisado, tenderia a enfatizar o colapso estrutural do sistema estatal, o subinvestimento crônico e a dependência de um único fornecedor externo como causas internas da crise, relativizando o peso do embargo.
No plano diplomático, Cuba solicitou uma sessão especial da Assembleia Geral da ONU para discutir as sanções americanas. O chanceler Bruno Rodríguez afirmou que os Estados Unidos pressionam governos para impedir que a Assembleia se pronuncie sobre o impacto do bloqueio, mas é necessária uma votação dos Estados-membros para abrir esse debate.
O que ainda não se sabe é o que efetivamente provocou o colapso do sistema, já que as autoridades não divulgaram a causa da falha, nem há prazo confirmado para o restabelecimento pleno da energia em toda a ilha. Também permanece em aberto se o pedido cubano de debate na ONU obterá os votos necessários para avançar.