A maioria dos brasileiros não lembra em quem votou para os cargos do Legislativo nas eleições de 2022 e tem grande dificuldade de citar o nome de deputados e senadores em exercício. É o que mostra uma pesquisa do Datafolha divulgada no domingo, 28 de junho de 2026, e repercutida por veículos de diferentes linhas editoriais. O levantamento ouviu 2.004 pessoas com 16 anos ou mais em 139 cidades, nos dias 17 e 18 de junho, com margem de erro de dois pontos percentuais.
O contraste central apontado pela pesquisa é a diferença de memória entre os cargos. Enquanto 85% dos eleitores afirmam lembrar em quem votaram para presidente em 2022, apenas 23% recordam o voto para deputado federal, deputado estadual e senador. Para o governo estadual, a lembrança fica em um patamar intermediário: 54% recordam o voto para governador. A cobertura de centro relatou esses números de forma direta, destacando que o voto para o Executivo é o mais lembrado e o voto para o Legislativo, o mais esquecido.
Todos os veículos convergem nos dados sobre o desconhecimento dos parlamentares. Questionados espontaneamente, 68% dos entrevistados não citaram nenhum deputado federal e 75% não souberam nomear nenhum senador em exercício. Entre os 513 deputados, apenas seis foram lembrados: Nikolas Ferreira, do PL de Minas Gerais, foi o mais citado, com 6%, seguido de Erika Hilton, do PSOL de São Paulo, com 4%. Entre os senadores, Flávio Bolsonaro, do PL do Rio de Janeiro, liderou com 3%, à frente de Romário, Cleitinho e Sergio Moro. As reportagens também registraram respostas incorretas dos entrevistados, como citar Cleitinho, que é senador, na condição de deputado, ou mencionar Eduardo Bolsonaro, cujo mandato foi cassado em dezembro de 2025.
A divergência de cobertura aparece menos nos números e mais na ênfase interpretativa. Veículos de esquerda tendem a ler o resultado como sinal de uma crise de representatividade e de educação cívica, observando que os poucos parlamentares lembrados se destacam pela forte presença nas redes sociais, e não necessariamente pela atuação legislativa, e que nomes de campo progressista como Erika Hilton, Sâmia Bomfim e Lindbergh Farias figuram entre os mais citados. Veículos de direita enfatizaram o ângulo da accountability: o fato de três em cada quatro eleitores não saberem quem é seu senador enfraquece o controle do cidadão sobre quem decide o gasto público, e premia os parlamentares que se comunicam diretamente com o eleitor. A cobertura de centro, por sua vez, ateve-se à descrição dos percentuais e dos recortes demográficos.
A pesquisa também trouxe recortes por gênero e por preferência partidária. O esquecimento do voto foi maior entre as mulheres e entre os mais jovens. Entre simpatizantes do PL, a recordação do voto, tanto para governador quanto para presidente, foi consistentemente maior do que entre os simpatizantes do PT. Entre quem declarou intenção de votar em Lula em 2026, 87% lembravam o voto de 2022; entre os que pretendem votar em Flávio Bolsonaro, o índice foi de 93%.
O que ainda não se sabe é o que explica, de fato, o abismo entre a memória do voto presidencial e a do voto legislativo, se ele decorre da personalização da política, do peso das redes sociais ou da própria estrutura do voto proporcional. As reportagens descrevem o fenômeno, mas não trazem análise conclusiva sobre suas causas nem sobre eventuais efeitos para as eleições de 2026.