Os registros da Justiça Eleitoral começaram a desenhar o retrato das eleições de outubro de 2026, e três recortes concentraram a cobertura desta semana: quem se candidatou, quem financia as campanhas e quem trocou de lado desde 2018.
Em São Paulo, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) recebeu 2.549 pedidos de registro de candidatura. Desses, 615, o equivalente a 24,1% do total, são de pessoas nascidas fora do estado. O grupo inclui três candidatos ao governo paulista, entre eles o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), cinco candidatos ao Senado, 320 postulantes à Assembleia Legislativa e 281 à Câmara dos Deputados. Bahia, com 109 registros, e Minas Gerais, com 101, lideram entre os estados de nascimento, seguidas por Paraná, Pernambuco e Rio de Janeiro. São 401 homens e 214 mulheres. Sete candidatos são brasileiros naturalizados, nascidos em cidades como Seul, Damasco, Buenos Aires e Havana. A proporção se aproxima da composição da população paulista: pelo Censo de 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), cerca de 20% dos moradores do estado nasceram em outra unidade da federação ou no exterior.
No financiamento, uma análise de mais de 10 mil doações registradas a partir de 30 de julho, feitas por mais de 9 mil pessoas físicas, mostrou que quatro bilionários somavam R$ 4,05 milhões até 25 de agosto. Alexandre Grendene Bartelle é o maior doador individual, com R$ 3 milhões, sendo R$ 2,5 milhões para Luciano Zucco (PL), candidato ao governo do Rio Grande do Sul, e R$ 500 mil para Ciro Gomes (PSDB), candidato ao governo do Ceará. O irmão, Pedro Grendene Bartelle, declarou R$ 700 mil. Walter Moreira Salles Junior distribuiu R$ 300 mil entre candidaturas do PSB, do PSOL e do PT, incluindo R$ 100 mil para a candidata ao Senado Manuela D'Ávila. João Moreira Salles registrou R$ 50 mil. No dia seguinte, apareceu o registro de R$ 100 mil doados por Lírio Albino Parisotto ao diretório estadual do MDB no Rio Grande do Sul.
O terceiro recorte é o das mudanças de campo. Soraya Thronicke, eleita senadora em 2018 pelo PSL, filiou-se ao PSB em abril de 2026 e disputa novamente o Senado no Mato Grosso do Sul com apoio de Lula. Luciano Bivar, que presidia o PSL quando Jair Bolsonaro venceu a eleição de 2018, é hoje primeiro suplente de Humberto Costa (PT) em Pernambuco. Julian Lemos, coordenador da campanha de Bolsonaro no Nordeste em 2018, declarou apoio à reeleição do atual presidente. Otoni de Paula, que foi vice-líder do governo Bolsonaro na Câmara, apoia Ronaldo Caiado (PSD) no primeiro turno e afirmou que votaria em Lula num eventual segundo turno contra Flávio Bolsonaro (PL). O senador Romário deixou o PL em agosto e passou a apoiar Eduardo Paes (PSD) no Rio de Janeiro.
A cobertura de centro tratou os três recortes como leitura de dados públicos, apresentando números de registro, valores declarados e patrimônio dos doadores sem atribuir intenção às escolhas. Veículos de esquerda deram outro enquadramento ao mesmo material: classificaram as trocas de partido como ruptura com o bolsonarismo, destacaram as declarações de defesa da democracia e descreveram parte dos casos como oportunismo político. Veículos de direita não apareceram no material reunido sobre esse conjunto de matérias, de modo que não há neste recorte uma leitura que trate as migrações partidárias como resposta ao ambiente judicial ou as doações empresariais como exercício ordinário de liberdade política.
O que ainda não se sabe é quanto desses números vai mudar. As prestações de contas são parciais e cobrem apenas o que foi declarado até o fim de agosto, sem indicar o total que cada campanha vai arrecadar. Não há informação sobre o que os doadores esperam das candidaturas que financiam, nem sobre como os políticos que mudaram de lado serão avaliados nas urnas. Também não está claro se a proporção de candidatos nascidos fora do estado observada em São Paulo se repete nas demais unidades da federação.