Defesa é desafio da política externa do Brasil, diz assessor de Lula
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Um assessor de Lula apresentou um diagnóstico estratégico sobre a vulnerabilidade do Brasil num mundo marcado pela ação militar das grandes potências, simbolizada pela intervenção dos EUA na Venezuela. A leitura à esquerda valoriza a defesa da soberania nacional sobre recursos estratégicos, como petróleo, programa nuclear e terras raras, e a necessidade de o Estado planejar e investir para reduzir a dependência externa. Ganha destaque a crítica ao uso político do tema do crime organizado e a aposta na integração latino-americana e na cooperação com a África, ainda que dificultada pela eleição de Milei na Argentina e pela crise na Venezuela. A defesa de um Brasil protagonista no Sul Global aparece como contraponto ao alinhamento automático com os Estados Unidos.
O diagnóstico do assessor de Lula expõe o atraso do Brasil em áreas estratégicas, da defesa à soberania digital, depois de anos de prioridades mal calibradas na política externa. A leitura à direita destaca a admissão de que o país está vulnerável e ficou para trás em terras raras e tecnologia, cobrando eficiência e foco em vez de discurso.
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Esquerda e direita reconhecem o diagnóstico central do assessor: o Brasil está vulnerável em defesa, soberania digital e minerais críticos, e a ação militar dos EUA na Venezuela elevou a urgência do tema. Ambos os lados tratam como factual a admissão de atraso e a lista de seis desafios até 2030.
A área de defesa será um dos principais desafios da política externa brasileira nos próximos anos. O diagnóstico é de Audo Faleiro, assessor-chefe adjunto da Assessoria Especial do Presidente da República, em fala na 2ª Conferência Nacional de Política Externa e Inserção Internacional do Brasil, realizada na Universidade Federal do ABC, em São Bernardo do Campo. Segundo ele, a ação militar dos Estados Unidos na Venezuela e a multiplicação de conflitos internacionais aumentaram a percepção de vulnerabilidade do país e deram urgência ao tema.
A cobertura de centro relatou que Faleiro foi claro ao afirmar que não enxerga ameaça imediata às reservas brasileiras de petróleo nem ao programa nuclear nacional. Ele lembrou que a operação americana na Venezuela teria como objetivo o controle das reservas de petróleo daquele país, situação que, em sua avaliação, não se reproduz no caso brasileiro. Ainda assim, o assessor defendeu que o Brasil precisa tomar uma decisão sobre investir ou não em defesa. Ele descreveu um dilema permanente na sociedade: de um lado, quem considera o país pacífico e dispensa investimentos; de outro, quem julga inútil investir diante da enorme assimetria militar frente às potências.
Para enfrentar esse impasse, Faleiro recorreu ao exemplo de conflitos assimétricos, como o entre Estados Unidos e Irã, para sustentar que nem sempre o mais forte vence quando há capacidade de dissuasão bem construída. Além da defesa, ele elencou outros cinco desafios para o país até pelo menos 2030: minerais críticos e terras raras, soberania digital, crime organizado transnacional, integração regional e cooperação com os países africanos. Sobre terras raras, avaliou que o arcabouço regulatório está defasado e citou o esforço para criar um Conselho Nacional de Minerais Críticos ligado à Presidência. Sobre soberania digital, admitiu que o Brasil perdeu o bonde da discussão e precisará investir para recuperar terreno.
Veículos de esquerda destacaram a leitura de soberania presente no discurso: a defesa de que o Estado planeje e invista para proteger recursos estratégicos como petróleo, programa nuclear e minerais críticos, reduzindo a dependência externa. Nessa chave ganham relevo a crítica ao intervencionismo militar das grandes potências, a aposta na integração latino-americana e na cooperação histórica com a África, e o alerta de Faleiro para que o combate ao crime organizado não seja manipulado para fins políticos. O assessor lembrou que o Brasil disputou e conquistou a direção-geral da Interpol, hoje ocupada por um delegado da Polícia Federal, e defendeu que o país saia da defensiva e proponha uma agenda regional contra o crime organizado.
Veículos de direita enfatizaram outro ângulo das mesmas declarações: a admissão de fragilidade e de atraso. O reconhecimento de que o Brasil é muito vulnerável, de que perdeu tempo em soberania digital e terras raras, e a avaliação de que a ampliação dos Brics em 2023 foi um erro que hoje paralisa o bloco, incapaz de chegar a consenso até sobre conflitos no Oriente Médio. Também ganhou peso a constatação de dez anos de abandono da relação com a África, hoje disputada por outros atores com instrumentos mais eficazes. Sob esse prisma, a ênfase recai sobre decisões pragmáticas de investimento e sobre não converter segurança em bandeira ideológica.
Faleiro ainda apontou que a integração regional foi complicada por dois fatores: a eleição de Javier Milei na Argentina e o resultado do processo eleitoral na Venezuela em 2024, que teria criado uma situação de veto cruzado e levado à paralisia de tentativas de reerguer a Unasul e a Celac.
O que ainda não se sabe é como, na prática, o governo pretende financiar um eventual aumento de investimento em defesa, qual o tamanho do orçamento envolvido e em que prazo o Conselho Nacional de Minerais Críticos sairá do papel. Nenhuma das matérias traz números do gasto atual com defesa nem contraponto de especialistas ou da oposição às avaliações do assessor.
Audo Faleiro, assessor-chefe adjunto da Assessoria Especial do Presidente da República, defende que país precisa tomar a decisão se investe ou não no setor
O setor exigirá maior atenção do país diante da ação militar dos Estados Unidos na Venezuela e de uma conjuntura internacional de ampliação de conflitos
