Três parlamentares do PSOL protocolaram representações contra o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), depois que ele chamou o pré-candidato ao governo paulista Fernando Haddad (PT) de “professorzinho” durante a convenção estadual do Republicanos, no dia 1º de agosto de 2026. Assinam os documentos a deputada federal Luciene Cavalcante, o deputado estadual Carlos Giannazi e o vereador paulistano Celso Giannazi.
São duas representações distintas. A primeira foi encaminhada ao Ministério Público de São Paulo e pede que o prefeito se retrate publicamente com a categoria dos professores, além da adoção de medidas extrajudiciais para que autoridades públicas se abstenham de usar a profissão de forma depreciativa. A segunda foi enviada ao Observatório Nacional de Violência contra Professores, com pedido de repúdio formal às falas e de registro do episódio como caso de violência simbólica contra profissionais da educação.
A cobertura de centro reconstituiu o episódio de forma convergente. A fala aconteceu no evento em que Nunes afirmou que o governador Tarcísio de Freitas “vai dar um coro” em Haddad e venceria já no primeiro turno. O trecho citado nos documentos é: “Não podemos ter aqui um governador incompetente que não cuidou da cidade, um professorzinho de nariz empinado, incompetente e sem vergonha.” Os três lados da cobertura reproduzem a mesma transcrição, os mesmos signatários e os mesmos dois destinatários das representações. Não há divergência sobre os fatos básicos.
A divergência está no peso atribuído ao episódio. Veículos de esquerda enfatizaram o argumento institucional dos parlamentares: quando o prefeito da maior cidade do país usa a palavra “professor” como ofensa, a desvalorização deixaria de ser apenas retórica e adquiriria dimensão institucional. Nessa leitura, o alvo do ataque não é apenas o adversário eleitoral, mas a própria docência, e a violência contra educadores incluiria o discurso de desqualificação profissional, não só a agressão física. Essa cobertura organizou o texto em torno da defesa da categoria e não abriu espaço para a resposta do prefeito.
Entre os veículos de direita não houve cobertura registrada neste conjunto de matérias. O contraponto disponível parte da nota do próprio prefeito, reproduzida integralmente pela cobertura de centro. Nela, Nunes afirma que a declaração não tem “nenhuma referência à profissão dos professores” e se dirige exclusivamente ao político. O prefeito acrescenta que convocou mais de 17 mil professores aprovados em concurso público e sustenta que o adversário, por seu histórico de gestão e desempenho eleitoral anterior, “só pode ser tratado no diminutivo como político”.
O episódio se dá em plena disputa pelo governo de São Paulo, com convenções partidárias em curso, o que ajuda a explicar a temperatura da retórica e também o interesse político em levá-la a órgãos de controle. Professores e servidores municipais da capital vinham protestando contra reajuste abaixo da inflação, contexto citado na cobertura de centro.
O que ainda não se sabe é o principal. Não há informação sobre se o Ministério Público de São Paulo dará seguimento às representações, qual o enquadramento jurídico possível para o pedido de retratação, nem sobre prazo de análise. O Observatório Nacional de Violência contra Professores não se manifestou publicamente sobre o pedido de registro do caso. Também não foi divulgada reação de Haddad ou do PT ao xingamento, nem posição do Republicanos e do governador sobre a fala feita em sua própria convenção.