A Polícia Federal deflagrou na manhã de terça-feira, 23 de junho de 2026, a Operação Miragem contra o Banco Digimais, instituição controlada pelo bispo Edir Macedo, líder da Igreja Universal do Reino de Deus. Segundo a corporação, o banco utilizava uma estrutura capaz de inflar artificialmente ativos e fabricar receitas contábeis, com o objetivo de esconder a real situação financeira e apresentar uma aparência de solvência aos órgãos reguladores e ao mercado.
Na ação, mais de 50 policiais federais cumpriram nove mandados de busca e apreensão expedidos pela Justiça Federal em São Paulo, contra 10 empresas e oito pessoas físicas. A decisão judicial autorizou ainda a quebra dos sigilos bancário e fiscal de 18 investigados e o bloqueio e sequestro de bens que podem alcançar cerca de R$ 670 milhões. Entre os alvos está o próprio bispo controlador da instituição.
A cobertura de centro relatou os fatos de forma direta, atribuindo todas as suspeitas à Polícia Federal e à Justiça Federal e detalhando os números da operação, sem emitir juízo sobre os investigados. Esse enquadramento concentra-se na mecânica da apuração: o que a PF suspeita, quantos mandados foram cumpridos e qual o valor dos bens bloqueados.
Veículos de esquerda destacaram um desdobramento político do caso. Segundo essa cobertura, o governo de São Paulo, comandado por Tarcísio de Freitas, credenciou o Banco Digimais em setembro de 2025 para oferecer crédito consignado a policiais militares, com desconto em folha de pagamento. O convênio, válido até 2030, alcançava uma base potencial de mais de 80 mil servidores da Polícia Militar paulista. O ponto enfatizado é que o credenciamento ocorreu quando a instituição já enfrentava deterioração financeira: relatórios de 2024 e 2025 apontavam aumento da inadimplência e necessidade de aportes frequentes do próprio Edir Macedo para evitar a insolvência. Na época do acordo, o banco acumulava prejuízos de cerca de R$ 250 milhões, perdas que em fevereiro de 2026 já se aproximavam de R$ 500 milhões. Para essa leitura, o episódio cobra responsabilidade do gestor estadual e fiscalização sobre convênios públicos com grupos econômicos.
Uma leitura de direita, ainda que não representada diretamente por um veículo no conjunto de reportagens, encontra base na nota oficial citada na própria cobertura: a São Paulo Previdência (SPPrev) afirmou que atua apenas como processadora dos descontos em folha das consignações autorizadas pelos beneficiários, que mais de 150 instituições financeiras estão habilitadas para operar nessa modalidade e que não cabe ao órgão a análise de mérito sobre produtos ofertados ou decisões comerciais. Por esse ângulo, o credenciamento seguiu requisitos legais e regulamentares iguais aos de outras instituições, e vincular o ato administrativo à investigação seria insinuação sem demonstração de irregularidade.
O ponto em que as coberturas convergem é o núcleo da apuração: a Polícia Federal suspeita de manipulação contábil no Banco Digimais e a Justiça autorizou medidas duras, incluindo bloqueio de bens. A divergência está no peso atribuído ao elo com o poder público: enquanto a cobertura de esquerda centraliza a responsabilidade do governo Tarcísio pelo credenciamento de um banco frágil, a leitura mais à direita, apoiada na nota da SPPrev, separa o ato administrativo da conduta privada sob investigação.
O que ainda não se sabe: não há, até o momento, manifestação da defesa de Edir Macedo ou do Banco Digimais sobre as suspeitas, nem posicionamento direto do governo de São Paulo sobre o credenciamento. Também não está esclarecido se o convênio com o Digimais seguiu rito idêntico ao das demais instituições habilitadas e quais serão os próximos passos da investigação após o cumprimento dos mandados.