O senador Eduardo Girão, do Novo pelo Ceará, foi anunciado na terça-feira, 4 de agosto de 2026, como candidato a vice-presidente na chapa do ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema, também do Novo. A definição fecha uma composição integrada apenas por quadros do próprio partido, apelidada de chapa puro-sangue, e obriga Girão a desistir da pré-candidatura ao governo do Ceará, lançada no início de julho. O anúncio ocorreu na véspera do encerramento do prazo legal das convenções partidárias.
A cobertura de centro, majoritária neste caso, relatou os fatos com o mesmo conjunto de informações. Girão tem 53 anos, é natural de Fortaleza e atuou como empresário nos setores de hotelaria, segurança privada, transporte de valores e produção audiovisual antes de entrar na política. Em 2017 presidiu o Fortaleza Esporte Clube. No ano seguinte, em sua primeira disputa eleitoral, foi eleito senador com mais de 1,3 milhão de votos, superando o então presidente do Senado. Em 2024 concorreu à Prefeitura de Fortaleza e terminou em quinto lugar, com cerca de 14,8 mil votos, o equivalente a 1,06% dos válidos. Filiou-se ao Novo em fevereiro de 2023, depois de passar pelo Pros e pelo Podemos, e tornou-se o primeiro e único senador da legenda.
Há convergência também sobre o percurso que levou à escolha. Antes de Girão, foram cogitados o ex-ministro do Supremo Tribunal Federal Joaquim Barbosa, o empresário Geraldo Rufino, o ex-deputado Tiago Mitraud e o cientista político Felipe d'Ávila, além de conversas com outras siglas que não avançaram. Ao anunciar a decisão, Zema afirmou em nota que sempre quis ao lado uma pessoa decente e de ficha limpa e disse que o senador demonstrou coragem e integridade para enfrentar o que chamou de abuso de poder, censura e farra dos intocáveis de Brasília. Girão respondeu que aceitou o convite como uma missão existencial, em nome de brasileiros sedentos por justiça, e prometeu levar ao país mais segurança, mais prosperidade e mais defesa da vida e da família.
As divergências de enquadramento aparecem no que cada cobertura escolhe destacar. Veículos de direita enfatizaram o perfil fiscalizador do senador, o discurso anticorrupção e a coerência de uma chapa formada sem barganha com outros partidos, além do ganho de presença no Nordeste. A cobertura de centro, por sua vez, sublinhou a fragilidade eleitoral do projeto: pesquisa Datafolha divulgada em 27 de julho apontou o candidato a presidente com 3% das intenções de voto, e no Ceará o senador aparecia em terceiro lugar, com 3% em levantamento Genial/Quaest, muito atrás dos dois favoritos ao governo estadual. Nessa leitura, a chapa pura seria menos escolha estratégica e mais consequência da dificuldade do partido em costurar coligações. Entre veículos de esquerda, o episódio não gerou cobertura própria no conjunto analisado, o que configura um ponto cego: fica sem enquadramento explícito a leitura crítica sobre o histórico do senador, registrado pela cobertura de centro, que inclui o apoio a pedidos de impeachment de ministros do Supremo, a defesa da anistia aos condenados pelos atos de 8 de janeiro de 2023 e a criação, em 2024, de um grupo de trabalho contra a vacinação infantil contra a Covid-19.
O registro parlamentar do escolhido é documentado. Dois projetos de sua autoria viraram lei: um instituiu o Dia Nacional do Espiritismo e outro, sancionado em julho de 2026, proibiu a produção e a comercialização de alimentos obtidos por alimentação forçada de animais. Ele apresentou o requerimento que ampliou a CPI da Covid, coletou assinaturas para investigar suspeitas envolvendo o Banco Master e teve emenda incorporada à proposta que acaba com a reeleição. Também votou contra indicações ao Supremo feitas por presidentes de campos opostos e, em 2019, contra o decreto que flexibilizava porte e posse de armas. Na economia, defende redução do tamanho do Estado, corte de cargos comissionados e diminuição de impostos.
O que ainda não se sabe é quem o partido apresentará no lugar do senador na disputa pelo governo do Ceará, se a chapa será efetivamente registrada na Justiça Eleitoral dentro do prazo que se encerra em 15 de agosto e qual será o efeito da escolha nas intenções de voto para a Presidência. Também segue em aberto como o eleitorado conservador se dividirá entre as candidaturas que disputam esse mesmo espaço no primeiro turno, marcado para 4 de outubro.