O dólar encerrou a última semana de junho de 2026 em queda, cotado a R$ 5,167 na sexta-feira (26), enquanto o Ibovespa avançou 0,75%, aos 173.295 pontos. O movimento consolidou uma semana de alívio nos mercados, puxada por dois vetores principais: a normalização gradual do fluxo de petróleo pelo Estreito de Hormuz, no Oriente Médio, e a recalibragem das apostas sobre os juros no Brasil e nos Estados Unidos.
A cobertura de centro relatou a sequência de fatos com detalhamento técnico. A retomada do tráfego pelo Estreito de Hormuz, via responsável por cerca de 20% do petróleo consumido no mundo, seguiu-se a um memorando de entendimento entre Estados Unidos e Irã para pôr fim ao conflito iniciado em fevereiro. Com a normalização, o barril do Brent recuou a US$ 71,99, devolvendo os ganhos acumulados durante a guerra e aliviando a pressão inflacionária global. No Brasil, o Banco Central cortou a Selic para 14,25% ao ano, e o IPCA-15 desacelerou a 0,41% em junho, abaixo das projeções de mercado.
Um ponto de convergência entre todos os veículos foi o ruído gerado pela comunicação do Comitê de Política Monetária. Ao justificar o corte da Selic, o Copom alongou na explicação e foi interpretado pelo mercado como leniente com a inflação. O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, em entrevista coletiva, reconheceu que o comitê pode ter errado ao tentar explicar demais a decisão, embora tenha reforçado que não há mudança na condução da política monetária. O diretor Paulo Picchetti acrescentou que a autarquia não pretende alongar o horizonte relevante da política monetária.
É na leitura dessas falas que as ênfases de cobertura se separam. Veículos de direita enfatizaram o risco à credibilidade do Banco Central: a comunicação dovish, a inflação acumulada de 4,8% em 12 meses ainda acima da meta e o desafio de alinhar discurso e ação para que os prêmios de risco continuem a ser devolvidos às curvas de juros. Nesse enquadramento, o diferencial de juros que vinha atraindo capital ao país pode encolher, pressionando o câmbio. Já veículos de esquerda destacaram o lado social e produtivo do cenário: o desemprego caiu a 5,6%, o menor nível da série histórica do IBGE, e o Banco Central elevou a projeção de crescimento do PIB de 1,6% para 2,0% em 2026, creditando a melhora ao mercado de trabalho resiliente e às medidas de estímulo do governo. Sob essa ótica, o choque da guerra não reiniciou a inflação e o espaço para novos cortes de juros favorece o emprego e o investimento.
No exterior, o índice PCE, preferido do Federal Reserve, avançou 4,1% em 12 meses até maio, o maior aumento desde abril de 2023, levando o mercado a apostar majoritariamente na manutenção dos juros americanos em julho e em possível aperto em setembro. A leitura predominante é a de que a queda dos combustíveis permite ao Fed manter a paciência.
O que ainda não se sabe é o ritmo exato do ciclo de juros no Brasil: o mercado segue dividido sobre a reunião do Copom de agosto, e a decisão dependerá dos dados que o Banco Central recolher nas próximas semanas. Também permanece incerta a durabilidade da trégua entre Estados Unidos e Irã e, com ela, a estabilidade dos preços do petróleo que ancora boa parte desse alívio.