O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, cancelou nesta quarta-feira, 24 de junho, a cerimônia de assinatura de um projeto de lei bipartidário voltado a acelerar a construção de moradias populares. Em uma publicação na rede Truth Social, ele admitiu que suspendeu a agenda para pressionar o Congresso a aprovar a chamada Lei SAVE America, um pacote de restrições ao voto que considera prioridade do seu governo. "A coletiva de imprensa e a assinatura do projeto de lei sobre habitação de hoje está cancelada até que aprovemos o tão necessário SAVE America Act, que considero uma emergência nacional", escreveu o presidente.
A cobertura de centro relatou que a proposta defendida pela Casa Branca exige comprovação de cidadania no momento do registro eleitoral e documento de identidade com foto para votar nas eleições legislativas de meio de mandato, previstas para novembro. O texto também prevê penalidades criminais para autoridades que cadastrarem eleitores sem a documentação exigida e obriga os estados a entregar suas listas de eleitores ao governo federal. Segundo a gestão, a medida serve para impedir a interferência de cidadãos estrangeiros no processo eleitoral, ainda que a legislação americana já proíba o voto de imigrantes sem documentos.
Todos os lados convergem em alguns pontos factuais. O movimento ocorreu um dia depois de uma derrota legislativa de Trump: o Senado aprovou uma resolução que obriga o Executivo a buscar aval do Congresso antes de manter ações militares contra o Irã. Há ainda o obstáculo aritmético. Os republicanos controlam 53 das 100 cadeiras do Senado, mas precisam de 60 votos para superar a obstrução da minoria, e o tema já fracassou em cinco votações desde março. Em uma visita ao Capitólio, o presidente afirmou ter tido uma reunião "realmente ótima" com senadores do seu partido.
É na interpretação que as coberturas divergem. Veículos e vozes de esquerda destacaram que a pauta de moradia, aprovada com ampla maioria nas duas Casas, foi sacrificada por uma agenda que dificulta o voto e ignora o custo de vida das famílias. A senadora democrata Elizabeth Warren, uma das negociadoras do projeto habitacional, afirmou que as políticas do presidente elevaram os custos e que ele "não se importa" com os afetados. A oposição sustenta que o objetivo real é criar obstáculos eleitorais para influenciar o resultado das eleições legislativas.
Já veículos de direita e a Casa Branca enfatizaram a integridade do pleito: a exigência de cidadania e documento seria uma defesa contra interferência estrangeira, e a Lei SAVE America, uma emergência nacional. Ainda assim, a cobertura mais próxima do espectro conservador não escondeu o desconforto dentro do próprio partido. O senador republicano John Cornyn, do Texas, classificou as ações de Trump como "inexplicáveis" e disse não conhecer precedente para a manobra, num momento em que os republicanos tentam convencer os eleitores de que estão focados em conter a disparada do custo de vida antes das eleições de novembro.
O que ainda não se sabe é se a pressão de Trump será suficiente para reunir os 60 votos necessários. Analistas independentes apontam a oposição como favorita para assumir o controle da Câmara dos Representantes. Há também a expectativa, observada por alguns congressistas, de que o projeto de moradia pode se tornar lei mesmo sem a assinatura, caso o presidente não o vete em até dez dias. Resta saber se o impasse se resolverá antes do pleito ou se aprofundará ainda mais as divisões internas do Partido Republicano.