O aquecimento das águas do Pacífico equatorial que caracteriza o El Niño entrou no centro das projeções para o segundo semestre de 2026 e já move duas frentes da economia brasileira: o equilíbrio do sistema elétrico e o custo das principais lavouras. O Centro de Previsão Climática da Agência Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos, a NOAA, calcula em 95% a chance de o fenômeno atingir intensidade muito forte entre outubro e dezembro e em 69% a probabilidade de ser o mais intenso desde 1950, início da série histórica da agência.
A cobertura de centro relatou o efeito direto dessa previsão sobre a operação do sistema elétrico. O Instituto Nacional de Meteorologia projeta chuva acima da média no Sul e abaixo da média no Norte e no Nordeste a partir de outubro. O Operador Nacional do Sistema registra o subsistema Sudeste/Centro-Oeste com 61,16% da capacidade de armazenamento, o Sul com 84,38%, o Nordeste com 80,80% e o Norte com 86,81%, e alertou em julho que o cenário mais desfavorável para o Sudeste e o Centro-Oeste é de chuva abaixo da média, com impacto nos lagos das hidrelétricas na primavera. Ao mesmo tempo, o operador prevê céu claro e ventos mais intensos no Nordeste, o que favorece a geração solar e eólica e pode reduzir o corte de geração hoje imposto por excesso de energia no sistema. O Ministério de Minas e Energia aponta o leilão de reserva de capacidade realizado em março, que contratou 501 MW, como uma das principais medidas de segurança, e admite despacho térmico adicional em caso de necessidade. No fim de julho, o governo antecipou para setembro a entrada em operação de cinco termelétricas, somando 1,8 GW ao Sistema Interligado Nacional.
Os dois blocos de cobertura convergem em pontos centrais: o evento climático é considerado provável e forte, os reservatórios do Norte e do Nordeste são o ponto de atenção, e nem o setor elétrico nem o agronegócio esperam parados. Convergem também no diagnóstico de que a resposta imediata passa por oferta já contratada, seja de energia térmica, seja de estoque e proteção financeira no campo.
Veículos de direita enfatizaram o ângulo empresarial e de mercado. Segundo essa cobertura, o milho é a cultura mais vulnerável da safra 2026/27, com risco concentrado em Mato Grosso, e investidores já reduzem exposição às companhias mais expostas. A SLC Agrícola chega ao evento com irrigação ampliada e calendário de plantio mais disciplinado, decidindo gradualmente sobre fertilizante e defensivo para não gastar onde a produtividade não se confirmar. A MBRF estendeu posições de hedge de grãos, com estoque físico e contratos a termo, para garantir abastecimento diante da possibilidade de preços mais altos. Na outra ponta, o arroz pode ver preços melhores em 2027 e temperaturas acima da média podem estimular o consumo de bebidas no terceiro e no quarto trimestres. O enquadramento é o da adaptação privada e da disciplina de capital, agravada por juros elevados que pressionam a alavancagem de quem comprou terra.
Veículos de esquerda não haviam tratado do assunto até o fechamento desta reportagem, e o ângulo ausente é justamente o distributivo: quem paga a conta do reforço térmico. Dos 501 MW contratados em março, 80% vêm de usinas a óleo combustível e diesel, a fonte mais cara e mais poluente da matriz, e o custo do acionamento costuma chegar ao consumidor pela tarifa. As regiões com previsão de menos chuva, Norte e Nordeste, são também as mais expostas socialmente à estiagem.
O contraste entre os dois blocos de cobertura está menos no fato e mais no sujeito. A cobertura de centro trata o El Niño como problema de planejamento e operação do Estado, com órgão regulador, ministério e associações setoriais disputando a ênfase entre térmicas e renováveis. A de direita trata o mesmo fenômeno como variável de risco em carteira, medida por preço-alvo de ação e posição de hedge.
O que ainda não se sabe é o essencial. Não há estimativa pública do custo do despacho térmico adicional nem indicação de efeito sobre bandeiras tarifárias e conta de luz. Não se conhece o volume de chuva que efetivamente cairá no período úmido, entre dezembro e março, que determina a situação dos reservatórios no início de 2027. Também não há projeção consolidada de quebra de safra do milho, apenas a avaliação de que o impacto ainda não foi incorporado às estimativas de consenso do mercado.