Com 100% dos votos apurados, a conservadora Keiko Fujimori venceu a eleição presidencial do Peru, segundo o resultado final divulgado nesta segunda-feira pelo Escritório Nacional de Processos Eleitorais. Candidata do partido Fuerza Popular, Fujimori obteve 50,135% dos votos válidos, o equivalente a 9.223.396 votos, contra 49,865% do candidato de esquerda Roberto Sánchez, da coalizão Juntos pelo Peru. A diferença, de menos de 50 mil votos, foi uma das menores margens registradas numa eleição presidencial peruana nas últimas décadas.
A cobertura de centro relatou que a apuração se arrastou por 22 dias após o segundo turno, realizado em 7 de junho, por causa do processamento de atas contestadas e de recursos. Sánchez chegou a abrir vantagem, mas acabou ultrapassado na reta final. O resultado ainda depende de proclamação oficial pelo Júri Nacional de Eleições, responsável por analisar os últimos recursos e declarar formalmente a presidente eleita para o mandato de 2026 a 2031. Se o processo transcorrer sem novos contratempos, a posse ocorrerá em 28 de julho. Filha do ex-presidente Alberto Fujimori, Keiko será a primeira mulher eleita presidente do Peru pelo voto popular, aos 51 anos, após três derrotas anteriores.
Todos os lados convergem sobre o quadro de instabilidade peruana: o país teve nove presidentes em dez anos, com a maioria deixando o cargo em meio a acusações de corrupção ou processos de destituição conduzidos pelo Congresso. Também há consenso de que Fujimori herda um país profundamente dividido e terá como principal desafio restaurar a estabilidade. Entre suas propostas estão a construção de megaprisões de segurança máxima e a retirada do Peru da Corte Interamericana de Direitos Humanos.
A divergência aparece no enquadramento. Veículos de esquerda enfatizaram a contestação do resultado: Sánchez alegou fraude, convocou marchas e pediu recontagem, apresentando recurso para anular votos de peruanos no exterior, justamente os que reverteram a apuração a favor da adversária. Essa cobertura lembrou que Keiko foi acusada de lavagem de dinheiro no caso da construtora brasileira Odebrecht, chegou a passar mais de um ano presa, e que seu pai foi condenado por crimes contra a humanidade. Já a leitura mais à direita, ecoada no slogan de campanha 'volta à ordem', tratou a vitória como um mandato legítimo para restaurar a estabilidade e reivindicou o legado de Alberto Fujimori como o líder firme que conteve a crise econômica e o terrorismo do Sendero Luminoso nos anos 1990. Veículos de direita também destacaram que a contestação da esquerda é considerada sem base jurídica por advogados eleitorais ouvidos pela imprensa peruana, e que o processo do caso Odebrecht foi arquivado pelo Tribunal Constitucional em 2025. A cobertura de centro registrou ambos os legados, o de estabilizador e o de violador de direitos humanos, sem tomar partido. O resultado também foi lido como reforço da onda conservadora na América Latina, ao lado de Argentina, Equador, Paraguai, El Salvador e Colômbia, o que deixaria o presidente Lula com menos aliados ideológicos na região.
O que ainda não se sabe é se a proclamação oficial pelo Júri Nacional de Eleições ocorrerá sem novos contratempos, qual será o desfecho dos recursos apresentados por Sánchez e se o candidato derrotado reconhecerá formalmente a vitória da adversária. A data da posse, prevista para 28 de julho, depende dessa confirmação final.