O candidato do PT ao governo de São Paulo, Fernando Haddad, colocou a segurança pública no centro da sua campanha ao lançar, em 10 de agosto de 2026, o programa SP Protege. A proposta mais visível do plano é o registro de boletins de ocorrência por aplicativo de mensagens, apelidada pela campanha de BO no Zap, que permitiria à vítima comunicar um crime sem se deslocar até a delegacia. Dois dias depois, em sabatina promovida pela Ordem dos Advogados do Brasil, Seção São Paulo, o candidato repetiu a proposta e afirmou que a tecnologia disponível hoje já permite validação digital imediata do registro.
O plano está dividido em três frentes, descritas como nas ruas, nas casas e no andar de cima. Para as ruas, Haddad propõe cruzar imagens de câmeras, registros de ocorrência e chamadas ao 190 para identificar áreas e horários de maior incidência criminal, produzindo o que chama de mapas de calor do crime. Na frente doméstica, prevê reforço das Delegacias de Defesa da Mulher, uma plataforma de inteligência artificial para cruzar dados e emitir alertas, e atendimento especializado com perícia em até 48 horas para crianças e adolescentes vítimas de violência. No terceiro eixo, propõe uma Agência Estadual Antifacção reunindo Ministério Público, polícias, Receita Estadual e órgãos de controle, com foco no bloqueio de patrimônio e no combate à infiltração do crime organizado na economia formal. Completam o pacote uma força-tarefa permanente no Porto de Santos contra o tráfico transnacional, patrulhamento de corredores logísticos no interior contra roubo de cargas, de gado e de insumos agrícolas, e câmeras corporais com gravação contínua, sem depender do acionamento do policial. O documento da campanha atribui a esse modelo de câmeras uma queda de 62,7% nas mortes de policiais em serviço entre 2019 e 2022. Na sabatina, o candidato acrescentou o fortalecimento do Sistema Único de Segurança Pública e a incorporação das guardas municipais à estratégia estadual, após decisões do Supremo Tribunal Federal.
Os dois blocos de cobertura convergem sobre o conteúdo das propostas, mas não sobre o que merece destaque. Veículos de direita registraram o lançamento em tom estritamente factual, listando as medidas e situando o anúncio um dia depois do primeiro debate com o governador Tarcísio de Freitas, do Republicanos, sem ouvir o governo estadual nem especialistas em segurança. Cobertura de centro, no sentido de reportagem que confronta as propostas com a versão dos dois lados da disputa, praticamente não apareceu neste conjunto. Já veículos de esquerda ampliaram o recorte para além do programa: deram espaço ao relato do candidato sobre uma abordagem que classificou como fora do padrão, na noite de 11 de agosto, quando uma viatura da Polícia Militar teria acompanhado seu motorista por cerca de 40 minutos, encostado no para-choque e projetado luzes sobre o carro, segundo o advogado da campanha, Hélio Silveira. Esses mesmos veículos desenvolveram as críticas de Haddad à postura do governador diante de declarações do senador Flávio Bolsonaro sobre a segurança das urnas eletrônicas, desmentidas pelo Tribunal Superior Eleitoral, e do deputado federal Eduardo Bolsonaro contra a obrigatoriedade da vacinação infantil. Registraram ainda que o petista discordou publicamente da fala do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre advogados criminalistas, criticada pela Ordem dos Advogados do Brasil.
Restam lacunas relevantes. Nenhuma das reportagens informa custo, fonte de financiamento ou prazo de implantação das medidas, nem explica como a validação digital impediria registros falsos ou o uso indevido do canal de denúncia. A Secretaria de Segurança Pública e a Polícia Militar não haviam se manifestado sobre o episódio da viatura até a publicação, e não há resposta do governo estadual ao conteúdo das propostas do adversário.