O Estreito de Ormuz, por onde passam cerca de 20% do gas e do petroleo consumidos no mundo, viveu na segunda-feira 23 de junho seu dia mais movimentado desde o inicio da guerra no Oriente Medio, no fim de fevereiro. Pelo menos 35 navios de carga cruzaram a passagem, um recorde desde o comeco do conflito, segundo dados da plataforma Kpler. O marco chega uma semana apos o anuncio de um memorando de entendimento entre Ira e Estados Unidos para encerrar as hostilidades, reabrir a rota estrategica e iniciar uma nova rodada de negociacoes de paz.
Veiculos de direita relataram o episodio sobretudo pelo prisma economico. A cobertura de centro-direita destacou que a noticia animou os mercados e representa alivio para o fornecimento global de energia: o barril de Brent, referencia internacional, era negociado a US$ 77, depois de ter chegado a quase US$ 120 no auge da guerra. Essa leitura enfatiza os obstaculos praticos a uma normalizacao completa. Entre eles estao a remocao de minas instaladas pela Guarda Revolucionaria Islamica, que deve levar no minimo 40 dias, os premios de seguro contra riscos de guerra ainda elevados e o congestionamento de mais de 1.500 embarcacoes represadas, volume que levara de tres a cinco meses para ser processado. Analistas citados nessa cobertura estimam que a normalizacao plena pode levar de dois a seis meses.
A cobertura de centro registrou os numeros que sustentam o quadro. Durante a guerra, de 1 de marco a 14 de junho, menos de 10 navios atravessavam o estreito por dia. Desde 15 de junho, um dia apos o anuncio do acordo, a media subiu para 21 e chegou a 27 nos ultimos cinco dias, ainda menos de um terco dos cerca de 120 navios diarios registrados em tempos de paz. O principal negociador iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, afirmou que o Ira administrara a via maritima, declaracao citada pela agencia estatal Irna, o que abre duvida sobre se os navios terao de pagar alguma taxa para transitar.
Ja veiculos de esquerda enquadraram o mesmo desfecho como uma derrota geopolitica dos Estados Unidos. Para essa cobertura, a ofensiva de Donald Trump contra Teera fracassou: nao houve mudanca de regime, nem desarmamento, nem limitacao ao uso de misseis, e os termos conhecidos do acordo refletiriam as condicoes exigidas pelo Ira. Essa interpretacao sustenta que Teera reforcou seu controle sobre Ormuz, passando a cobrar pedagios que nao existiam antes da guerra, e que Washington teve de comecar a levantar sancoes comerciais e financeiras em troca da reabertura da navegacao. A mesma leitura aponta que a paz segue fragil porque o governo de Benjamin Netanyahu mantem bombardeios ao Libano, situacao que o Ira exigiu incorporar explicitamente ao acordo de cessar-fogo.
As duas coberturas convergem em um ponto central: a rota voltou a operar e os precos do petroleo recuaram, reduzindo o risco de um choque energetico global. Divergem sobre o significado politico do acordo. Enquanto a cobertura economica concentra-se em logistica, custos e estabilidade do fornecimento, a cobertura de esquerda le o desfecho como sinal de declinio da hegemonia norte-americana na regiao.
O que ainda nao se sabe e decisivo. Nao esta claro se o Ira cobrara taxas de transito, nem em que formato, nem se o cessar-fogo resistira diante da guerra de Israel no Libano. Tambem permanece incerto o prazo real de normalizacao plena da navegacao e a duracao do compromisso assinado entre Teera e Washington, dado o historico de acordos rompidos na regiao.