A compra da mineradora Serra Verde, que opera o projeto Pela Ema no norte de Goiás, pelo grupo norte-americano USA Rare Earth entrou na etapa final e colocou as terras raras brasileiras no centro de uma disputa geopolítica. Na segunda-feira, 24 de agosto de 2026, a compradora anunciou ter reunido os recursos necessários para concluir o negócio. Cerca de metade do valor vem do governo dos Estados Unidos, por meio da pasta responsável pela defesa, e há ainda um contrato de aquisição de produtos de terras raras ao longo de cinco anos. A assembleia de acionistas que ratifica a operação está marcada para o dia 28, com conclusão esperada para o fim do mês.
Os relatos convergem no essencial. A jazida goiana é descrita como a única fonte de argila iônica em escala comercial fora da Ásia, tipo de depósito do qual se extraem terras raras pesadas usadas em ímãs permanentes, motores elétricos, robôs e aeronaves militares. O dinheiro público americano responde por perto de metade da transação, e a produção brasileira deve ser integrada a uma cadeia de processamento que passa por instalações nos Estados Unidos e no Reino Unido. Os valores divulgados, porém, não batem entre si: uma linha de cobertura fala em R$ 7,7 bilhões no total, com R$ 3,8 bilhões de aporte do governo americano, uma linha de crédito de até US$ 500 milhões e contrato de ao menos R$ 1,5 bilhão em cinco anos; a outra registra US$ 1,5 bilhão de valor da operação, US$ 750 milhões bancados por Washington e mais de US$ 1 bilhão já destinados ao projeto pela compradora.
É na leitura do negócio que as coberturas se separam. Veículos de esquerda enquadraram a operação como apropriação de riqueza nacional por um Estado estrangeiro, apoiados em um economista doutor pela Universidade Federal de Minas Gerais, para quem o País perde a possibilidade de explorar a mina em seu próprio território e vê a verticalização industrial acontecer fora daqui. Nessa leitura, há um precedente jurídico a contestar: a legislação brasileira determina que os recursos minerais pertencem à União e que a pesquisa e a lavra cabem a brasileiros ou a empresas constituídas sob leis do País, com sede e administração no Brasil. Como a Serra Verde é formalmente brasileira, mas passa a operar sob controle financiado por outro Estado, a cobertura de esquerda sustenta que houve uma janela de oportunidade legal aproveitada por Washington, e cita um levantamento segundo o qual 42% dos 2.727 requerimentos de exploração apresentados até junho de 2026 pertencem a empresas sediadas no exterior ou a subsidiárias delas.
Veículos de direita enfatizaram o outro lado da conta. Ali a mina aparece como ativo estratégico que ganha escala com capital e tecnologia de processamento, capaz de responder por mais da metade da produção mundial de terras raras pesadas fora da China até 2027. O contexto oferecido é a disputa entre Estados Unidos e China pelo controle da cadeia de minerais críticos, com Pequim concentrando produção e refino e o Ocidente correndo atrás de fontes alternativas. A única voz citada é a do presidente-executivo da compradora, Michael Blitzer, que fala em construir uma cadeia de suprimentos segura e resiliente. Não há, nessa cobertura, menção ao debate sobre soberania mineral nem a autoridade brasileira ouvida. Veículos de centro não cobriram o caso até o momento, de modo que o relato factual da operação chega ao leitor apenas pelas duas leituras ideológicas.
O desfecho regulatório também está em aberto. O projeto que cria a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, já aprovado na Câmara dos Deputados, ficou parado no Senado durante o atrito entre o presidente da Casa, Davi Alcolumbre, e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em torno da indicação para o Supremo Tribunal Federal. Com o acordo entre os dois, a tramitação foi destravada e o texto pode ir a voto. Não se sabe se a nova lei alcançaria uma operação já em curso, quais instrumentos concretos ela criaria para o caso da Serra Verde, nem se o governo brasileiro pretende questionar a transação. Também seguem sem resposta o volume de processamento que permaneceria em território brasileiro, a arrecadação prevista e o posicionamento oficial da Agência Nacional de Mineração sobre a estrutura societária resultante da compra.