O Pentágono anunciou que pretende estender para operações em terra a campanha militar que os Estados Unidos conduzem contra grupos ligados ao narcotráfico na América Latina. O plano foi apresentado pelo secretário de Defesa americano, Pete Hegseth, durante viagem ao Panamá, onde ocorreu um encontro da Coalizão Anticartéis das Américas, aliança que reúne 19 países sob liderança de Washington. Colômbia e Equador foram citados por Hegseth como os primeiros parceiros com quem o governo americano trabalha para viabilizar esse tipo de ação. Segundo o secretário, o objetivo é reproduzir em solo o mesmo efeito obtido contra as embarcações conhecidas como narcolanchas.
Até agora, a ofensiva se concentrava no mar. Desde setembro de 2025, forças americanas atacam barcos suspeitos de transportar drogas no Caribe e no leste do Oceano Pacífico. A cobertura de centro registrou, com base em levantamento de agência internacional de notícias, que essas operações deixaram ao menos 215 mortos, e detalhou que a Colômbia, sob o presidente Abelardo de la Espriella, aderiu ao chamado Escudo das Américas e autorizou discussões sobre operações militares conjuntas contra o Exército de Libertação Nacional e dissidências das antigas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, as Farc. O governo americano também declarou a intenção de destinar US$ 1 bilhão em assistência de segurança ao país. Argentina, Bolívia, Chile, Equador, Honduras e Peru estão entre os integrantes da coalizão; Brasil e México ficaram de fora.
As duas coberturas disponíveis convergem no essencial. Ambas descrevem a mudança como uma nova etapa da política do presidente Donald Trump, que substituiu o modelo tradicional de apoio, treinamento e fornecimento de equipamento às forças de segurança locais pelo emprego direto das Forças Armadas americanas. As duas também registram que qualquer operação terrestre dependerá de acordo e autorização do governo do país onde ocorrer, e que a Colômbia já deu esse passo.
A divergência aparece no que cada lado escolhe mostrar. Veículos de direita apresentaram a expansão como cooperação para destruir redes de narcoterrorismo e crime organizado transnacional, mantiveram o vocabulário oficial de Washington e deixaram o contraponto restrito a uma frase sobre o debate que virá a respeito de soberania, sem citar críticos, sem o número de mortos e sem o valor prometido à Colômbia. A cobertura de centro, além de trazer esses dados, abriu espaço para o questionamento jurídico: organizações de direitos humanos sustentam que o uso de força letal sem julgamento pode configurar execução extrajudicial, enquanto a administração americana alega estar em conflito armado com organizações classificadas como narcoterroristas. Hegseth foi direto ao rejeitar a via judicial, ao afirmar que não pretende submeter os suspeitos a um processo em que sabe que serão liberados, e comparou os cartéis a grupos como Estado Islâmico e Al Qaeda. Até o fechamento desta reportagem, nenhum veículo de esquerda havia coberto o caso, e por isso não há registro de como esse campo enquadrou o anúncio.
O que ainda não se sabe é o essencial da execução. Não há data divulgada para o início das operações terrestres, nem definição pública sobre se elas envolverão tropas americanas em solo estrangeiro ou apenas apoio de inteligência e poder de fogo a forças locais. Também não foram detalhadas as regras de engajamento, a base jurídica internacional invocada por Washington, os critérios para designar um alvo legítimo e os mecanismos de verificação sobre quem foi atingido. Nenhuma das coberturas registrou a posição do governo brasileiro sobre uma ofensiva militar estrangeira em países vizinhos, nem a reação dos demais governos da região que não integram a coalizão.