A Polícia Federal identificou uma mensagem de WhatsApp em que a empresária e lobista Roberta Luchsinger envia a Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, então chefe de gabinete do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a minuta de um contrato para a venda de medicamentos à base de canabidiol ao Ministério da Saúde, com dispensa de licitação. O material foi obtido no desdobramento da apuração sobre os descontos indevidos em aposentadorias e pensões do INSS. Marcola confirma que recebeu o documento e afirma que não o repassou a ninguém do governo. Interlocutores dizem que ele reconheceu ter sido inadequado receber a proposta, mas sustentam que não houve favorecimento.
A empresária foi contratada por Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS, preso sob suspeita de desviar recursos da Previdência. Segundo a investigação, ela recebeu R$ 1,5 milhão em cinco parcelas de R$ 300 mil para atuar junto à pasta da Saúde em favor de uma empresa do ramo de cannabis medicinal. A venda nunca aconteceu. Em nota, o Ministério da Saúde afirmou que nunca houve possibilidade de compra, porque o canabidiol sequer está incorporado ao Sistema Único de Saúde, e que não existe contrato nem discussão sobre oferecer o produto na rede pública.
Roberta Luchsinger é amiga de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente, alvo de três inquéritos no Supremo Tribunal Federal por suspeita de tráfico de influência, autorizados pelos ministros André Mendonça e Flávio Dino. A apuração também examina a relação da empresária com Marcola: ela pagou boletos e comprou duas joias de diamantes, de cerca de R$ 9,2 mil, que ele pediu para presentear familiares no Dia das Mães de 2024. A defesa do ex-chefe de gabinete sustenta que os valores repassados somaram R$ 217 mil, integravam um empréstimo e foram quitados com correção, chegando a R$ 249 mil. Registros oficiais mostram que a empresária esteve oito vezes no Palácio do Planalto e fez ao menos 32 visitas a gabinetes de ministérios entre 2023 e 2025.
A cobertura de centro concentrou-se na cadeia documental do caso: a minuta, os diálogos interceptados, os valores, os registros de acesso a órgãos públicos e as respostas das defesas e do Ministério da Saúde, apresentadas lado a lado. Veículos de esquerda deram relevo à negativa de Marcola, ao fato de que as investidas na pasta não prosperaram e ao argumento das defesas de que o caso é alimentado por divulgação seletiva de trechos de um material sob sigilo, com possível quebra da cadeia de custódia das provas. Veículos de direita enfatizaram o silêncio do Palácio do Planalto e da campanha de reeleição, o trânsito da lobista pela alta cúpula do governo e o custo político de o episódio alcançar um assessor que hoje coordena a agenda do candidato.
A defesa de Lulinha afirma confiar nas instâncias formais de apuração e diz que vai se manifestar nos autos apenas depois de ter acesso integral aos dados obtidos com as quebras de sigilo. Advogados do filho do presidente procuraram o ministro da Justiça e o diretor-geral da Polícia Federal para cobrar apuração sobre o que classificam como divulgação parcial e seletiva das mensagens, e afirmam que uma eleição não pode ser definida por setores de uma corporação policial. No fim de julho, Lula declarou que o filho não terá privilégios e terá de provar sua inocência.
Ainda não se sabe se a minuta de contrato chegou a algum servidor do Ministério da Saúde, nem se a investigação identificou contrapartida concreta pelo recebimento do documento. Segue em aberto a discussão sobre a autenticidade e a cadeia de custódia das mensagens, questionada pelas defesas, e o conteúdo integral do material da apuração, que ultrapassa 300 páginas e tramita sob sigilo no Supremo Tribunal Federal. Também não há prazo divulgado para a conclusão dos três inquéritos.