O nome escolhido pela Polícia Federal para uma das fases da investigação que mira Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, virou assunto político em Brasília. A linha de apuração foi batizada de Elli, e a palavra foi lida por aliados do presidente e por integrantes do Palácio do Planalto como referência velada ao gesto 'Faz o L', bordão das campanhas petistas desde 2022 e depois apropriado por opositores em tom crítico ao governo.
A investigação apura suspeitas de tráfico de influência e de lavagem de dinheiro e nasceu como desdobramento da Operação Sem Desconto, que revelou o esquema de descontos ilegais em aposentadorias do Instituto Nacional do Seguro Social, o INSS. A apuração levou à quebra dos sigilos de Fábio Luís e da empresária Roberta Luchsinger, apontada nos autos como lobista e descrita como amiga pessoal do filho do presidente. O Supremo Tribunal Federal autorizou três inquéritos distintos sobre condutas atribuídas a Fábio Luís e a pessoas do seu círculo: dois estão sob relatoria do ministro André Mendonça e um com o ministro Flávio Dino. A apuração corre sob sigilo, e a defesa nega qualquer irregularidade.
A cobertura de centro relatou o elemento que muda a leitura do episódio. Segundo apuração junto à cúpula da corporação, Elli é, na mitologia nórdica, a deusa que personifica a velhice e que derrotou Thor numa disputa de forças, tratada como símbolo da resistência dos idosos, justamente o público lesado pelo esquema do INSS. Essa justificativa estaria registrada nos sistemas internos da Polícia Federal desde a abertura da investigação, embora não tenha entrado nos comunicados públicos da instituição. A mesma cobertura lembrou que operações anteriores já foram batizadas com nomes de divindades nórdicas e gregas, e citou um integrante da cúpula para quem o caso foi apenas uma 'coincidência infeliz'.
Veículos de direita enfatizaram o conteúdo da investigação, e não a controvérsia semântica. Descreveram o pedido de abertura de inquérito enviado ao Supremo, a hipótese de sociedade oculta entre o filho do presidente e a empresária, mensagens extraídas do celular dela que tratam de negócios com o poder público, inclusive com o Ministério da Saúde, e trechos em que os interlocutores discutem como evitar a exposição pública do nome de Fábio Luís. Uma dessas mensagens, em que Roberta afirma que o futuro dos dois seria 'na Suíça', passou a integrar o material analisado. Essa cobertura também registrou outra hipótese para o nome, ligada a um termo de origem hebraica, e sustentou que a reação do Planalto revela desconforto com o avanço da apuração sobre o núcleo familiar do presidente.
A cobertura de esquerda está ausente do conjunto de reportagens analisado, e os argumentos que costumam vir desse campo aparecem aqui de forma indireta, pela voz da defesa e de aliados do presidente reproduzidos pelos demais veículos. O advogado Marco Aurélio de Carvalho classificou a escolha do nome como perseguição e disse que pedirá explicações formais sobre a origem da denominação. Em outra entrevista, foi além: afirmou ver na palavra uma provocação possivelmente criminosa e atribuiu o episódio a setores da corporação que estariam atuando sob interesses político-eleitorais, com ressalva expressa de respeito ao diretor-geral, Andrei Rodrigues. A defesa também contesta a força probatória das mensagens, alegando não ter tido acesso a informações suficientes sobre a cadeia de custódia do material.
A divergência de fundo é sobre onde está o problema. Para a leitura que parte do entorno presidencial, o batismo antecipa um veredito e contamina a apuração com o calendário eleitoral. Para a leitura crítica ao governo, a discussão sobre o nome funciona como manobra para deslocar o foco das evidências reunidas até aqui. A cobertura de centro fica entre as duas versões e conclui que a explicação existia, mas não foi comunicada a tempo, num momento político em que qualquer silêncio institucional é preenchido por suspeita.
Ainda não se sabe o essencial. A Polícia Federal não se pronunciou oficialmente sobre a escolha do nome, e não há confirmação de que tenha recebido pedido formal de esclarecimento ou de que tenha explicado o caso ao presidente e a seus aliados. Também não há, segundo os próprios investigadores, comprovação de que Fábio Luís tenha se beneficiado das articulações relatadas nem recebido vantagem financeira.