O senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) discursou na noite de domingo, 28, em Buenos Aires, durante conferência da Israel Allies Foundation, e disse que os brasileiros olham para o mapa da América Latina com 'um pouco de inveja' dos vizinhos que elegeram representantes da direita. 'Enquanto nossos vizinhos, um a um, escolhem a liberdade e a ordem, o Brasil ainda está preso ao passado. Somos a peça que falta nesse mapa', afirmou, prometendo uma mudança nas eleições de outubro. No dia seguinte, o senador tinha encontro previsto com o presidente argentino Javier Milei na Quinta de Olivos.
O evento, organizado em parceria com a American Friends of the Isaac Accords, reúne parlamentares em torno de uma agenda de aproximação com Israel. Flávio voltou a prometer, caso eleito, transferir a embaixada do Brasil em Israel para Jerusalém, gesto que Jair Bolsonaro havia anunciado em 2018 e nunca cumpriu. O senador afirmou ainda que, na prática, não há relação diplomática plena entre Brasil e Israel, lembrando que o país está sem embaixador em Israel desde 2024. Ele também acusou o governo Lula de fazer 'lobby internacional a favor de terroristas' ao se opor à classificação do Comando Vermelho e do PCC como organizações terroristas pelos Estados Unidos, decisão tomada em maio.
A cobertura de centro, como a da Folha, relatou as falas com fidelidade e contexto: descreveu o evento, a presença de cerca de 20 políticos de diferentes países, a posição de Milei como defensor de Israel e a agenda eleitoral em torno da comunidade judaica, que reúne nomes como o governador Tarcísio de Freitas. Esses veículos registraram também a tensão diplomática aberta em 2024, quando Lula comparou a ofensiva israelense em Gaza ao Holocausto e foi declarado persona non grata por Israel.
Veículos de esquerda, como o Diário do Centro do Mundo, enfatizaram o contraste entre o elogio a Milei e a situação econômica da Argentina, descrita como 'afundada em crise', com inflação anual acima de 30%, desemprego em alta, consumo fraco e fechamento de empresas sob o ajuste do presidente argentino. Para essa cobertura, a exaltação ao modelo vizinho ignora o custo social do receituário ultraliberal sobre trabalhadores e pequenas empresas. Já a leitura à direita, presente no próprio discurso de Flávio reproduzido pelas fontes, enfatiza a defesa da liberdade, da ordem e do alinhamento com Israel e os Estados Unidos, apresentando a virada conservadora regional como caminho a ser seguido pelo Brasil e cobrando o governo por enfraquecer o combate ao crime organizado.
O que ainda não se sabe é como o governo Lula responderá às acusações, se haverá desdobramento concreto na agenda diplomática e qual o efeito eleitoral, no Brasil, de um discurso feito no exterior em ano de eleição. As fontes também não detalham o resultado do encontro previsto entre Flávio e Milei.