O ex-deputado federal Alexandre Ramagem (PL-RJ) teve o nome incluído em uma lista de pagamentos atribuída ao bicheiro Adilson Oliveira Coutinho Filho, o Adilsinho, apreendida pela Polícia Federal durante a 5ª fase da Operação Unha e Carne, deflagrada na quinta-feira. O documento identificado como planilha 2 registra quatro depósitos a um cliente descrito como DEP RAMAGEM, nos dias 2, 6, 21 e 29 de setembro, com valores de R$ 39.708, R$ 30 mil, R$ 18.100 e R$ 22.080. Ramagem não foi alvo da ação desta fase, mas é investigado junto com outros nomes que aparecem na lista.
A cobertura de centro, como o blog de Octávio Guedes no G1, relatou os fatos de forma sóbria: destacou que o ex-deputado aparece na planilha, que segue sob investigação e que a reportagem procurou sua assessoria, sem receber posicionamento. Esse enquadramento separa com cuidado a citação em um documento da comprovação de qualquer crime.
Veículos de esquerda, como o Diário do Centro do Mundo, enfatizaram o passado de Ramagem: ex-diretor da Agência Brasileira de Inteligência no governo Bolsonaro, condenado pelo Supremo Tribunal Federal a 16 anos, um mês e 15 dias por organização criminosa armada, tentativa de abolição do Estado Democrático de Direito e golpe de Estado, e hoje foragido nos Estados Unidos, onde pediu asilo político enquanto o governo brasileiro solicita sua extradição. Essa cobertura amarra a citação na lista do bicheiro a uma trajetória já marcada por acusações graves.
Há pontos em que todos os lados convergem. A operação prendeu o pastor e empresário Márcio Poncio em um flat na Barra da Tijuca, por suspeita de ligação com a chamada Máfia do Cigarro, que controla a venda de cigarros falsificados em quase metade dos municípios do Rio. O ministro Alexandre de Moraes expediu mandados de prisão contra Adilsinho e o ex-deputado Rodrigo Bacellar, ambos já presos, e determinou o sequestro de bens e valores de até R$ 22 milhões. A 5ª fase deriva de uma determinação do STF na ADPF das Favelas, que ordena a apuração de vínculos entre grupos criminosos e agentes públicos.
As divergências de cobertura aparecem no peso dado a cada ângulo. A esquerda enfatizou também a citação do ex-governador Cláudio Castro (PL), com anotação de uma doação de R$ 3,2 milhões na campanha de reeleição de 2022, e ligou o caso ao padrão de acusações contra figuras do campo bolsonarista no Rio. Já a leitura mais afeita à direita ecoa o argumento das defesas: a de Castro chamou de mentirosa qualquer ilação de pagamento e sustentou que a mera citação de um nome não comprova recebimento de valores nem prática de ilícito, ponderação que tende a questionar a proporcionalidade de medidas como o sequestro de bens e mandados contra quem já está preso.
O que ainda não se sabe é central. As anotações da planilha não registram o ano dos supostos pagamentos, e a PF ainda aprofunda a análise dos documentos recolhidos. Não há, até aqui, comprovação de que Ramagem ou Castro tenham efetivamente recebido os valores, nem definição sobre eventuais desdobramentos formais contra o ex-deputado, que segue foragido enquanto seu pedido de asilo tramita nos Estados Unidos.