O primeiro debate entre os candidatos à Presidência da República na eleição de 2026 foi realizado na noite de domingo, 23 de agosto, em um estúdio na Zona Sul de São Paulo, e terminou marcado menos pelo confronto de propostas do que pelos púlpitos vazios. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição, e o senador Flávio Bolsonaro (PL), seu principal adversário na disputa, não compareceram. Romeu Zema (Novo) cancelou a presença horas antes. Restaram no palco Ronaldo Caiado (PSD), Renan Santos (Missão) e Augusto Cury (Avante).
Cury foi o episódio mais tumultuado da noite. Faltando cerca de 45 minutos para o início, sua assessoria avisou aos jornalistas que haveria novidade na porta da emissora. O candidato iniciou uma transmissão ao vivo, criticou as ausências dos dois adversários mais bem colocados, disse que aquilo era um teatro e anunciou que também não participaria. Cinco minutos depois, voltou atrás, procurou a direção do programa e entrou no estúdio.
As coberturas convergem no essencial. A cobertura de centro e os veículos de direita descrevem a mesma cronologia: as ausências anunciadas ao longo da semana, o cancelamento de Zema no mesmo dia, a ida e volta de Cury, o protesto de militantes da Unidade Popular do lado de fora pela participação de Samara Martins e a movimentação de Renan Santos diante das câmeras. Todos registram que a regra em vigor só obriga o convite a candidatos de partidos com pelo menos cinco parlamentares eleitos em 2022, critério que barra a candidata da Unidade Popular. Também há convergência sobre as fraldas com os nomes de Lula e Flávio Bolsonaro exibidas pelo candidato do Missão, e sobre as críticas de Caiado, que disse que quem tem apenas escândalos a mostrar se nega a comparecer e questionou a independência moral dos ausentes.
As ênfases divergem. A cobertura de centro puxou para a cena da plateia e para o custo simbólico do esvaziamento: arquibancadas com espaços desocupados preenchidos por profissionais sem credencial, jornalistas impedidos de deixar a área interna sob risco de perder o acesso e o presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, candidato a vice de Caiado, flagrado cochilando diversas vezes ao longo de mais de uma hora e meia. Veículos de direita concentraram-se na encenação dos presentes e no cálculo dos ausentes, descrevendo a circulação de Renan Santos pelo estúdio com apoio do deputado federal Kim Kataguiri (Novo), a exibição de um livro de campanha durante a transmissão e a decisão de Zema de priorizar sabatinas por avaliar que seria alvo preferencial no palco. No conjunto de matérias analisado não há cobertura de veículos de esquerda sobre os bastidores desta noite, o que deixa sem registro próprio o ângulo das regras de acesso ao debate, tema levantado na rua pelos manifestantes barrados.
Há ainda o contraponto de agenda. Enquanto o debate corria, uma entrevista de Lula gravada pela manhã no Palácio da Alvorada foi ao ar no mesmo horário em outra emissora. Flávio Bolsonaro publicou um vídeo nas redes para explicar a ausência e passou a noite em Brasília. Na segunda-feira, o senador cumpriu compromissos de campanha em São Paulo.
O que ainda não se sabe é se as ausências vão se repetir. Nenhuma das campanhas de Lula, Flávio Bolsonaro e Romeu Zema anunciou uma posição definitiva sobre os próximos encontros, e permanece em aberto se o senador mantém a condição de só participar quando o presidente também estiver presente. Também não há informação sobre audiência do programa, sobre eventual revisão do formato pelos organizadores para as rodadas seguintes, nem sobre recurso da Unidade Popular contra o critério que deixou sua candidata fora do palco. O único compromisso já firmado é o debate de segundo turno, acordado com as campanhas para ocorrer entre 7 e 18 de outubro.