O porta-voz da Casa Rosada, Adrian Ravier, afirmou na terça-feira, 28 de julho, que “sempre houve insultos de ambos os lados” na relação entre Argentina e Brasil. A frase respondeu a perguntas sobre a crise aberta pelos ataques do presidente argentino, Javier Milei, ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Segundo Ravier, o episódio se explica por “diferenças ideológicas e políticas”, a Argentina “nunca levou essas diferenças para o âmbito diplomático” e o desgaste não deve afetar as relações entre os dois países, “ou pelo menos não do lado argentino”.
A crise começou no sábado, 25 de julho, na convenção nacional do PL em São Paulo, que oficializou a candidatura do senador Flávio Bolsonaro à Presidência da República. Convidado de honra do evento, Milei chamou Lula de “ladrão” e “presidiário”, estimulou o coro da plateia, disse que o Brasil vive uma “perseguição política” e afirmou que apenas Flávio Bolsonaro poderia parar o adversário e trazer mudança ao país. O presidente argentino também ofendeu o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes, a quem chamou de “lixo careca” por não autorizar uma visita ao ex-presidente Jair Bolsonaro, que cumpre prisão domiciliar após condenação por tentativa de golpe de Estado.
A reação do governo brasileiro se deu em dois planos. No diplomático, o Ministério das Relações Exteriores convocou o embaixador argentino em Brasília, Daniel Raimondi, para prestar esclarecimentos, e chamou de volta o embaixador brasileiro em Buenos Aires, Julio Bitelli, para consultas, medida reservada a momentos de tensão entre países. O chanceler Mauro Vieira transmitiu a “repulsa” do governo às declarações. No plano político, o vice-presidente Geraldo Alckmin classificou a fala como “intromissão grosseira” em assunto eleitoral interno, o ministro Dario Durigan chamou Milei de “palhaço” e Guilherme Boulos, de “caricatura patética”. Lula respondeu com ironia na segunda-feira, 27: “Quem é esse cara?”.
Veículos de esquerda destacaram a assimetria do episódio e trataram a fórmula do “ambos os lados” como escudo retórico, lembrando que foi o Brasil, e não a Argentina, quem precisou acionar os mecanismos formais da diplomacia, e que as ofensas partiram de um chefe de Estado estrangeiro em território brasileiro, contra o presidente da República, o Judiciário e as instituições. Essa cobertura enfatizou ainda o registro do Itamaraty de que não há precedente conhecido para o caso.
A cobertura de centro relatou a fala do porta-voz lado a lado com a reação brasileira e acrescentou contexto: as farpas entre os dois líderes remontam a 2023, quando o argentino já classificava o petista como parte de uma “casta de políticos ladrões”; em 2024, Lula sugeriu um pedido de desculpas e ouviu do vizinho que havia assuntos mais relevantes que “o ego inflado de algum esquerdinha”. Desde então a relação vinha sendo apenas protocolar. Essa mesma cobertura registrou que, no domingo 26, Milei acusou o governo brasileiro, sem apresentar qualquer evidência, de ter bancado um quarto de uma campanha contra a Argentina nas redes sociais durante a Copa do Mundo, tese repetida pelo porta-voz sem indicação de fonte.
Veículos de direita não publicaram cobertura própria do episódio no material reunido até aqui, o que configura um ponto cego. O argumento que sustenta a leitura favorável ao presidente argentino aparece nas falas reproduzidas pelas duas reportagens: trata-se de disputa entre um projeto pró-mercado e a esquerda regional, manifestada em evento partidário durante visita privada, sem status de política de Estado e, portanto, sem efeito previsto sobre a relação bilateral.
O que ainda não se sabe é se o Brasil adotará medidas além da convocação de embaixadores, quando o representante brasileiro retorna a Buenos Aires e se haverá manifestação do próprio Milei, que viajou a Lima para a posse da nova presidente do Peru. Também não há resposta do governo argentino sobre a origem dos números usados na acusação de financiamento, nem registro de reação do PL ou de Flávio Bolsonaro às ofensas dirigidas ao chefe de Estado brasileiro no palanque de sua própria convenção.