A participação do presidente da Argentina, Javier Milei, na convenção nacional do Partido Liberal que oficializou o senador Flávio Bolsonaro como candidato à Presidência transformou-se em atrito diplomático e em combustível da disputa eleitoral de 2026. Desde o sábado do evento, o argentino publicou 44 mensagens nas redes sociais com ataques ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que concorre à reeleição, e a autoridades como o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal. A média de quase 15 publicações por dia contrasta com a semana anterior ao ato partidário, quando ele havia compartilhado um único conteúdo do gênero.
A escalada teve resposta oficial. O Itamaraty convocou o embaixador brasileiro na Argentina para consultas e chamou o embaixador argentino em Brasília para prestar esclarecimentos. A cobertura de centro relatou que a maior parte do material publicado pelo presidente argentino é de republicação, entre elas postagens que responsabilizam o Brasil por uma suposta campanha contra a Argentina durante a Copa do Mundo, versão que ele sustentou sem apresentar provas, e a entrevista de um condenado pelos atos golpistas de 8 de Janeiro que cumpre prisão domiciliar no país vizinho após fugir do Brasil. Também foi registrado o compartilhamento do post de um influenciador argentino que chamava Lula de ladrão, em referência à condenação da Lava-Jato que o Supremo Tribunal Federal anulou.
Um levantamento de uma empresa de monitoramento de redes analisou 158 mil menções ao tema entre sábado e segunda-feira e encontrou 84,3% de manifestações de reprovação, contra 5,2% de apoio, com predomínio de termos como ingerência, irresponsabilidade e desrespeito ao Brasil. A reação atravessou o campo conservador. O presidenciável Ronaldo Caiado condenou a postura do argentino, ao dizer que não se governa na esculhambação e que alguém não pode chegar de fora e se achar no direito de xingar o presidente e um ministro, mas atribuiu o episódio à perda de autonomia da diplomacia brasileira nas gestões petistas.
Veículos de direita concentraram a cobertura em outro ângulo: a representação apresentada pelo Partido dos Trabalhadores à Procuradoria-Geral Eleitoral, que pede ao Ministério Público Eleitoral a apuração da origem dos recursos usados para custear a viagem. O partido quer saber se as despesas saíram de dinheiro público argentino, de recursos próprios do presidente, de verbas partidárias do Partido Liberal ou de aportes privados de terceiros, e também questiona o uso da estrutura do Governo de São Paulo, já que, antes da convenção, Milei esteve no Palácio dos Bandeirantes e recebeu do governador Tarcísio de Freitas a Ordem do Ipiranga, a mais alta honraria do estado. Nessa cobertura, o caso aparece como disputa jurídico-eleitoral, sem menção à convocação dos embaixadores nem ao volume de postagens.
Veículos de esquerda não produziram cobertura própria neste conjunto de matérias. O ângulo da soberania nacional aparece de forma indireta, pelo texto da representação petista, que sustenta ser imprescindível esclarecer a extensão dos recursos empregados justamente porque a solenidade envolveu aparato estatal, instalações públicas, protocolo oficial e participação de agentes públicos. A divergência de fundo entre as coberturas é sobre qual é o fato central: a interferência de um chefe de Estado estrangeiro em campanha brasileira ou a decisão do partido do governo de levar o adversário ao Ministério Público logo após a convenção.
Ainda não se sabe quem pagou a viagem nem se a Procuradoria-Geral Eleitoral vai instaurar procedimento a partir do pedido. Também não há, nas matérias, resposta do Partido Liberal, do Governo de São Paulo ou do governo argentino às acusações, nem indicação de quais medidas o Brasil pode adotar depois da convocação dos dois embaixadores. No pano de fundo eleitoral, uma pesquisa divulgada no mesmo período apontou estabilidade na vantagem de Lula sobre Flávio Bolsonaro.