O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, autorizou na quinta-feira, 30 de julho, a abertura de um inquérito da Polícia Federal contra Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Os investigadores querem apurar suspeitas de corrupção e tráfico de influência em tentativas de obter, no Ministério da Saúde, autorização para a comercialização de cannabis medicinal. O pedido da corporação foi feito em 24 de julho, distribuído em 29 e caiu com Mendonça por sorteio, depois de a Procuradoria-Geral da República concluir que os fatos não tinham relação com a Operação Sem Desconto, que apura fraudes no INSS.
No mesmo dia, o ministro retirou o sigilo de outra investigação, a que apura a suposta atuação do senador Jaques Wagner em favor do Banco Master. A Polícia Federal identificou 74 ligações entre o senador e um ex-sócio da instituição financeira, realizadas entre novembro de 2023 e maio de 2025. O parlamentar nega qualquer irregularidade. Ele já havia sido alvo de busca e apreensão em junho, na nona fase da Operação Compliance Zero. Os dois casos passaram a ser tratados em conjunto nos bastidores do Palácio do Planalto, e é dessa combinação que nasce o eixo da cobertura: qual dos dois desgasta mais o governo em ano de eleição presidencial.
A cobertura de centro relatou que aliados do presidente se dividem sobre o tamanho do estrago eleitoral. Parte deles enxerga motivação política na decisão de um ministro indicado por Jair Bolsonaro e poupa a Polícia Federal, lembrando que o próprio governo deu autonomia à corporação. Outra parte do PT reconhece seriedade na atuação de Mendonça e afirma que a abertura do inquérito é o funcionamento normal das instituições, sem perseguição ao entorno do presidente. Dentro da equipe de campanha, avalia-se que o episódio pode afetar tanto o eleitor fiel quanto o independente, mas que só vira risco real à candidatura se aparecerem elementos mais comprometedores, como áudios, vídeos ou uma eventual prisão. Um segundo integrante da equipe sustenta que o caso não deve reverter o desempenho do presidente nas pesquisas. O próprio Lula, em entrevista a um podcast, disse que não usará o cargo para proteger o filho e que não pedirá a delegado ou juiz que deixe de fazer o que é correto.
Veículos de direita enfatizaram o outro lado da equação: a decisão do Planalto de concentrar energia na contenção do caso do filho enquanto mantém o apoio público à reeleição do senador investigado no caso Banco Master, inclusive com agendas de campanha conjuntas. Nesse enquadramento, a hierarquia de prioridades revela critério eleitoral, e não republicano, e o volume de contatos telefônicos entre o senador e o ex-sócio do banco é apresentado como dado difícil de explicar. Essa cobertura registra ainda que aliados do presidente esperam cautela do senador Flávio Bolsonaro ao explorar o tema, porque o nome dele também apareceu associado ao Banco Master em reportagens anteriores, com pedido de recursos a um ex-banqueiro para um projeto audiovisual.
O enquadramento característico de veículos de esquerda opera pelo contraste institucional: a investigação existe e avança porque não houve interferência do governo sobre a Polícia Federal, ao contrário do que dirigentes petistas atribuem à gestão anterior no caso envolvendo o filho do então presidente. A defesa de Lulinha vai além e sustenta que o inquérito é uma peça de ficção, que teria motivação política e que provavelmente não existiria se o investigado não fosse filho do presidente. O secretário de Comunicação do PT acrescenta que acusações contra ele costumam ressurgir em períodos eleitorais.
A oposição já converteu o episódio em material de campanha. Flávio Bolsonaro publicou vídeo dizendo que a apuração avançou apesar da suposta blindagem e comparou o tratamento dado ao filho do presidente com o que teria recebido o filho de Bolsonaro. Os deputados e senadores que o acompanham repetiram a comparação em tom mais curto nas redes sociais.
O que ainda não se sabe é o essencial. Não há denúncia formal, nem detalhamento público das provas que levaram a Polícia Federal a pedir a abertura do inquérito, nem prazo para a conclusão da apuração.