O ex-governador de Minas Gerais e candidato à Presidência Romeu Zema publicou na sexta-feira, 31 de julho de 2026, um novo episódio da série de vídeos satíricos “Os Intocáveis”, produzida com inteligência artificial. A peça mira a abertura de inquéritos contra o empresário Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. No roteiro, personagens que representam o presidente, a primeira-dama Janja, o próprio Lulinha e o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, encenam uma conversa fictícia. O boneco do presidente se mostra preocupado sobretudo com a proximidade das eleições, tenta recorrer ao Supremo em favor do filho e ouve do personagem de Dino que o caso está sob relatoria de outro ministro e que, desta vez, não haveria como ajudar.
O pano de fundo do vídeo é factual. O ministro André Mendonça autorizou, na quinta-feira 30 de julho, a instauração de um inquérito para apurar suspeitas de tráfico de influência e corrupção nas articulações em torno do mercado de cannabis medicinal. Segundo a Polícia Federal, o filho do presidente teria atuado para favorecer a comercialização de canabidiol junto ao Ministério da Saúde e ao gabinete da Presidência, em parceria com a empresária Roberta Luchsinger e com o empresário Antonio Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS. No dia seguinte, o mesmo ministro autorizou um segundo inquérito, também a pedido da corporação, para investigar suspeitas envolvendo contratos com a estatal Dataprev e a relação do empresário com um sócio interessado em fechar negócios com órgãos federais.
As duas apurações têm origem comum: provas compartilhadas da Operação Sem Desconto, que investiga o esquema de descontos associativos indevidos em aposentadorias do INSS, estimado em cerca de R$ 6 bilhões. Como a Polícia Federal concluiu que as suspeitas ligadas ao canabidiol não têm relação direta com as fraudes nos benefícios, pediu ao Supremo a separação dos casos, o que deu origem ao novo inquérito. Nos autos, o empresário admitiu ter viajado a Portugal com despesas pagas por Antunes para prospectar negócios no setor.
Os pontos de convergência entre as coberturas são a data e o conteúdo do vídeo, a autoria das decisões judiciais e a origem das investigações. As ênfases divergem. Veículos de direita destacaram o encadeamento entre a sátira e o histórico de arquivamentos que teria beneficiado o filho do presidente ao longo dos anos, tratando o caso como teste de accountability sobre pessoas próximas do poder, e reproduziram as piadas do vídeo sem trazer a resposta da defesa. A cobertura de centro relatou os mesmos fatos com mais camadas: registrou que a série é produzida com inteligência artificial, lembrou que ela já motivou um ministro do Supremo a acionar a Corte e uma denúncia da Procuradoria-Geral da República por calúnia, e deu espaço à defesa, que nega irregularidades, afirma que apurações anteriores não encontraram provas, chama a nova investigação de pesca probatória e sustenta que há tentativa de influenciar as eleições de 2026. Veículos de esquerda não repercutiram o episódio no material reunido até aqui, de modo que o ângulo do custo institucional do uso de imagem sintética contra autoridades e o da presunção de inocência de um investigado sem denúncia formal aparecem apenas de forma indireta, pela fala da defesa registrada na cobertura de centro.
O que ainda não se sabe é o essencial. Não há denúncia formal nem prazo divulgado para a conclusão dos dois inquéritos, e não foi tornado público o conjunto de provas que sustenta os pedidos da Polícia Federal. Também não houve manifestação da Presidência da República nem do partido do presidente sobre o novo vídeo, e não está esclarecido se este episódio será incorporado às ações judiciais que já correm contra a série. Por fim, permanece em aberto o estágio processual da denúncia por calúnia apresentada pela Procuradoria-Geral da República contra o autor dos vídeos.