O governo federal lançou nesta terça-feira o Plano Safra 2026/2027, principal instrumento de crédito rural do país, em duas cerimônias realizadas no Palácio do Planalto. Para a agricultura empresarial, voltada a médios e grandes produtores, foram destinados R$ 525,1 bilhões. Para a agricultura familiar, o governo anunciou R$ 97,3 bilhões. Somadas as modalidades, o programa mobiliza cerca de R$ 622,4 bilhões no próximo ciclo agrícola.
A cobertura de centro relatou que o lançamento da parte empresarial foi conduzido pelo vice-presidente Geraldo Alckmin, enquanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva participou apenas do anúncio voltado à agricultura familiar, no fim da tarde, depois de retornar de uma reunião de cúpula do Mercosul no Paraguai. Do total empresarial, R$ 384,9 bilhões vão para custeio e comercialização e R$ 140,2 bilhões para investimentos como armazenagem, irrigação e modernização. O governo destacou a redução das taxas de juros em linhas estratégicas, atribuída à queda da Selic: segundo o ministro da Agricultura, André de Paula, os juros de custeio empresarial caíram de 14% para 12,5% ao ano.
Os pontos em que todos os lados convergem são os números centrais e a natureza do programa. O Plano Safra é uma política pública anual que existe independentemente do governo, e todas as fontes registraram o volume recorde em termos nominais e a redução de várias taxas de juros. Na agricultura familiar, houve consenso na descrição das medidas: os juros para alimentos básicos como arroz, feijão e mandioca caíram de 3% para 2% ao ano, e a produção orgânica e agroecológica passou a ter taxa de 1% ao ano, a menor da série.
As divergências de cobertura aparecem no enquadramento. Veículos de esquerda, incluindo material institucional do próprio governo, enfatizaram a dimensão social do plano familiar, sob o lema de que um país soberano é aquele que alimenta o seu povo. Destacaram a ampliação de crédito para mulheres, jovens, assentados da reforma agrária, indígenas e quilombolas, o subsídio direto do Tesouro para baratear os juros na ponta e o objetivo declarado de reduzir o preço dos alimentos nos supermercados. Já veículos de direita e o setor produtivo puxaram a preocupação com os juros ainda altos e a leitura de que o aumento de R$ 9 bilhões, equivalente a 1,7%, ficou abaixo da inflação do período. A Frente Parlamentar da Agropecuária foi além e contestou os próprios números: afirmou que, descontados recursos que teriam sido incorporados artificialmente à rubrica de investimentos, o programa representa uma redução real de R$ 29,6 bilhões, ou 5,73%, e classificou a manobra como engenharia financeira. A bancada também criticou a ausência de Lula no lançamento empresarial, interpretando o gesto como tentativa de dividir o agronegócio entre pequenos e grandes produtores.
O que ainda não se sabe é como se dará, na prática, a execução do crédito e se os produtores de fato contratarão os recursos anunciados, já que o próprio presidente pediu ao setor familiar que use todo o valor disponibilizado. Também permanece em aberto o desfecho da disputa sobre os números levantada pela bancada do agro e o andamento, no Congresso, dos projetos de renegociação de dívidas rurais e de reformulação do seguro rural, cobrados pela Frente Parlamentar da Agropecuária.