O governo federal liberou R$ 33,89 bilhões em emendas parlamentares entre janeiro e a primeira semana de julho de 2026, o maior volume já registrado para o período em um ano de eleição. Os dados vêm do sistema Siga Brasil, do Senado Federal, que consolida informações orçamentárias desde 2015, e foram divulgados originalmente por levantamentos do Estadão e do Metrópoles. Os repasses foram concluídos antes de 4 de julho, data em que teve início o defeso eleitoral, o período de três meses que antecede o primeiro turno e impõe restrições ao uso da máquina pública. O primeiro turno das eleições está marcado para 4 de outubro.
A cobertura de centro relatou os números de forma factual e comparativa. O valor de 2026 supera os últimos cinco ciclos eleitorais: foram R$ 29,40 bilhões em 2024, R$ 23,70 bilhões em 2022, R$ 15,54 bilhões em 2020, R$ 6,88 bilhões em 2018 e R$ 1,41 bilhão em 2016. O montante deste ano é 20,9% superior ao de 2022, última eleição presidencial, e corresponde a 75,3% de tudo o que foi pago ao longo de 2025. Do total, R$ 18,55 bilhões são emendas individuais, R$ 7,68 bilhões de comissão, R$ 7,28 bilhões de bancada estadual e R$ 386 milhões de relator-geral, o chamado orçamento secreto, proibido pelo Supremo Tribunal Federal em 2022, mas cujas sobras de anos anteriores seguem sendo pagas.
Há convergência entre todos os veículos sobre os fatos centrais: o valor recorde, a data do defeso e a origem legislativa das mudanças que ampliaram o poder do Congresso sobre o orçamento. A divergência está na ênfase. Veículos de direita enfatizaram o uso eleitoral dos recursos: destacaram que pelo menos R$ 24,5 bilhões foram liberados sem que obras fossem concluídas, o que permite gastar o dinheiro durante a campanha, e apontaram que o calendário de pagamentos prioritário no primeiro semestre, sancionado por Lula, funcionou como moeda de troca para flexibilizar a meta fiscal. Também ressaltaram que senadores pré-candidatos à reeleição, como Weverton Rocha e Carlos Fávaro, estão entre os que mais receberam. Parte dessa cobertura ampliou a crítica para um retrato mais amplo de gastos do Executivo, mencionando despesas com viagens oficiais e o número de terceirizados na Presidência.
Embora nenhum veículo de esquerda tenha coberto diretamente este cluster, a leitura provável desse campo, a partir dos fatos disponíveis, enfatizaria que a escalada das emendas resulta de mudanças legais aprovadas pelo próprio Congresso desde 2019, como a emenda Pix e a antecipação de transferências sem projeto pronto, e que boa parte dos recursos financia saúde e assistência em estados e municípios. Nessa chave, o defeso eleitoral aparece como salvaguarda para reduzir a desigualdade entre candidatos.
O que ainda não se sabe: as reportagens não trazem a manifestação do governo sobre a legalidade e a destinação final dos repasses, não detalham quanto dos R$ 24,5 bilhões liberados sem obras concluídas será efetivamente gasto durante a campanha, nem esclarecem como a Justiça Eleitoral fiscalizará o cumprimento das restrições do defeso ao longo do período.