O Departamento de Estado dos Estados Unidos informou em 24 de agosto de 2026 que trabalha em conjunto com o Departamento de Segurança Interna, o DHS, para identificar e cassar vistos de não imigrantes de estrangeiros que entraram no país como visitantes de curta duração e depois solicitaram asilo. O comunicado oficial não fixou quantas pessoas seriam atingidas. Documentos do próprio departamento e duas autoridades americanas, obtidos por uma agência internacional de notícias, apontam que a medida pode alcançar até 200 mil titulares de vistos B1 e B2 emitidos entre 2016 e 2026. Se for aplicada nessa dimensão, será a maior revogação coletiva de vistos da história americana.
O visto B1 é destinado a viagens de negócios e o B2 a turismo, visita a familiares e tratamento médico. Em ambos, o solicitante declara no processo que não pretende permanecer de forma definitiva e precisa demonstrar intenção de retornar ao país de origem. Tommy Pigott, porta-voz do Departamento de Estado, afirmou que o órgão está identificando com o DHS os casos de quem chegou dizendo que seria visitante temporário e depois pediu asilo para ficar. Ele não revelou o número de atingidos e disse que a análise e as revogações devem ocorrer de forma gradual.
Os dois lados que cobriram o caso convergem nos fatos centrais. A cobertura de centro e a cobertura de direita registram igualmente que a perda do visto não produz deportação imediata: quem tem processo de asilo pendente deve ser reclassificado e seguir com o pedido em análise, ainda que perca a condição de visitante autorizado a negócios ou turismo. As duas também situam a medida numa sequência mais longa de restrições adotadas no segundo mandato de Donald Trump, que inclui a exigência de mais informações sobre redes sociais dos solicitantes, depósitos elevados para certos pedidos, suspensão de emissão para cidadãos de alguns países e cerca de 175 mil vistos já revogados nos últimos 18 meses.
A divergência está no que cada lado coloca em primeiro plano. Veículos de direita organizam a matéria em torno do argumento de controle: destacam que o visto de turista é concedido mediante declaração de estadia temporária, reproduzem a crítica do vice-secretário de Estado Christopher Landau a pedidos de asilo que funcionariam como brecha para contornar a lei migratória, citam o caso individual de um colombiano que entrou com visto de turismo em 2015 e depois pediu asilo, e listam ao lado o combate ao chamado turismo de nascimento. Nenhuma voz de afetados ou de entidades civis aparece nessa cobertura. A cobertura de centro apresenta a mesma justificativa oficial, mas acrescenta o contraponto: grupos de direitos humanos afirmam que a repressão migratória em curso violou os direitos à liberdade de expressão e ao devido processo legal e criou um ambiente inseguro, sobretudo para minorias étnicas que relatam perfilamento racial. Registra ainda que parte das revogações anteriores atingiu estrangeiros que se manifestaram publicamente contra políticas americanas para o Oriente Médio. Veículos de esquerda não produziram cobertura própria sobre o anúncio no conjunto analisado; a leitura provável desse campo, a partir dos fatos já relatados, é a de que punir com a cassação do visto quem exerceu um direito previsto em tratados internacionais transforma um procedimento legal em presunção de fraude.
O que ainda não se sabe é substancial. Não há data para o anúncio formal, e o número de 200 mil é uma estimativa que o próprio governo diz poder mudar. Os documentos analisados não indicam quantos titulares atuais de B1 e B2 têm pedido de asilo em andamento, de modo que a proporção real de afetados permanece indefinida. Também não está claro qual será a situação migratória exata de quem for reclassificado, nem o efeito sobre autorização de trabalho e permanência de famílias. Por fim, resta a via judicial: tentativas anteriores do governo de restringir a cidadania por nascimento foram barradas pela Justiça americana, inclusive pela Suprema Corte, e a revogação em massa dos vistos B1 e B2 deve enfrentar contestação semelhante caso saia do papel.