A campanha de Fernando Haddad ao governo de São Paulo quer colocar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao lado do candidato do PT com muito mais frequência nas semanas que antecedem o primeiro turno. O ponto de partida é um ato público no centro de São José do Rio Preto, no interior paulista, que deve reunir Lula, Haddad, o vice-presidente Geraldo Alckmin e as candidatas ao Senado pelo estado, Marina Silva e Simone Tebet. Os dois estiveram juntos no lançamento da campanha presidencial em 16 de agosto, em São Bernardo do Campo, mas desde então o presidente dividiu a agenda entre compromissos de governo e de campanha em Brasília e em outros estados, deixando São Paulo em segundo plano.
O motivo da mudança está nas pesquisas. Levantamento do instituto Quaest divulgado no fim de agosto apontou Tarcísio de Freitas com 40% das intenções de voto no primeiro turno, contra 27% de Haddad, com margem de erro de dois pontos percentuais para mais ou para menos. Aparecem depois Policial Edjane com 2%, Vera Lúcia com 1%, Carlos Machado com 1% e Vivian Mendes com 1%. Os indecisos somam 13%, e brancos e nulos, 14%. Em 25 de agosto, o mesmo instituto havia mostrado Lula e Flávio Bolsonaro empatados com 30% no estado, o que torna o maior colégio eleitoral do país um terreno disputado também na eleição presidencial.
A campanha pediu ao presidente espaços na agenda para caminhadas conjuntas na capital, com pelo menos duas previstas em periferias das zonas Sul e Leste, regiões onde o PT historicamente tem bom desempenho. Segundo interlocutores, já houve sinalização positiva, e o que falta é conciliar agendas. Está em análise ainda uma caminhada na Avenida Paulista às vésperas do primeiro turno, repetindo o roteiro de 2022, ano em que Lula e Haddad foram mais bem votados na cidade de São Paulo do que Jair Bolsonaro e Tarcísio de Freitas. Na maior parte das cidades paulistas, porém, a situação dos petistas é mais difícil, e por isso o ato no interior é tratado por aliados como estratégico, com ênfase nos repasses do governo federal a municípios do estado. Outra agenda em negociação é na Baixada Santista, onde o principal trunfo é o Túnel Santos-Guarujá, obra financiada pelos governos estadual e federal e que serve de vitrine tanto para Tarcísio quanto para Lula.
O alvo declarado da dobradinha é o chamado voto Tarula, a fatia de eleitores que prefere o petista para a Presidência, mas quer Tarcísio no governo estadual. Pelo levantamento citado, 11% dos lulistas em São Paulo optam por Tarcísio no confronto direto com Haddad, e o mesmo percentual aparece entre eleitores que se consideram de esquerda mas não se enquadram no termo. Esse campo representa cerca de um quarto do eleitorado paulista. No sentido inverso, Haddad atrai 2% dos votos bolsonaristas e 4% dos eleitores de direita que não se consideram seguidores do ex-presidente Jair Bolsonaro, de quem o candidato do Republicanos foi ministro.
Uma ressalva sobre a cobertura: até o momento, apenas um veículo relatou a articulação da agenda conjunta, em texto de perfil factual, centrado no bastidor da campanha petista e apoiado em interlocutores não identificados. Não há, por ora, versões concorrentes que permitam comparar como diferentes lados do espectro enquadram o episódio, e os números apresentados vêm de um único instituto de pesquisa.
O que ainda não se sabe é quando exatamente as caminhadas na capital acontecerão, se a agenda na Baixada Santista será confirmada e se o ato na Avenida Paulista sairá do papel. Também não há avaliação independente sobre o efeito dessas aparições nas intenções de voto, nem manifestação da campanha de Tarcísio de Freitas sobre a estratégia adversária.