O Hamas anunciou nesta segunda-feira, 6 de julho de 2026, a dissolução do órgão que governava a Faixa de Gaza havia quase duas décadas, abrindo caminho para que um comitê de tecnocratas palestinos assuma a administração civil do território. O chefe do comitê de emergência do governo, Mohammed al-Farra, apresentou sua renúncia, e a estrutura foi extinta para facilitar a transição ao Comitê Nacional para a Administração de Gaza, conhecido pela sigla NCAG. O novo órgão, presidido pelo engenheiro Ali Shaath e sediado no Cairo, é formado por cerca de quinze tecnocratas palestinos e integra o chamado Conselho de Paz, iniciativa criada em outubro de 2025 pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para intermediar o cessar-fogo entre Israel e o Hamas.
A cobertura de centro relatou os fatos com detalhe e paridade. O Hamas passou a administrar Gaza em 2007, quando seus combatentes tomaram o controle do território do movimento rival Fatah, após vencer as eleições legislativas do ano anterior. A saída da gestão civil é descrita como uma mudança política significativa, embora o grupo mantenha funcionários técnicos nos cargos e continue responsável pela segurança e pelo policiamento nas áreas sob seu domínio. Israel, por sua vez, controla mais de 60% da Faixa e afirma não pretender se retirar, mantendo o que chama de zona de segurança. O saldo humanitário permanece grave: o enclave segue em ruínas, com praticamente toda a população de dois milhões de habitantes deslocada, e novos ataques israelenses foram registrados no próprio dia do anúncio.
Sobre esse mesmo conjunto de fatos, as coberturas divergem no enquadramento. Veículos de esquerda destacaram que o Hamas, tratado como movimento de resistência palestino, agiu para retirar de Israel qualquer pretexto de prosseguir com o que classificam como guerra de extermínio e genocídio, enfatizando o sofrimento da população civil e a continuidade dos bombardeios israelenses mesmo sob a trégua. Já veículos de direita enfatizaram o ceticismo: uma autoridade israelense definiu o gesto como manobra de imagem sem significado, uma vez que o quadro de pessoal do Hamas permanece praticamente inalterado, e o Conselho de Paz afirmou que medirá o anúncio com base em ações, não em promessas, exigindo a consolidação de todo o armamento sob uma única autoridade.
O ponto de convergência entre todos os lados é o impasse do desarmamento. O Hamas se recusa a entregar suas armas fora do âmbito de uma iniciativa política palestina mais ampla, condição rejeitada por Israel. Para o cientista político palestino Mkhaimar Abusada, a decisão tem caráter predominantemente simbólico, já que o verdadeiro obstáculo não é a estrutura administrativa, mas a aceitação do desarmamento. A primeira fase do cessar-fogo, que incluiu a libertação dos últimos reféns israelenses em troca de presos palestinos, foi concluída, mas a segunda fase, que prevê o desarmamento e a retirada gradual das forças israelenses, segue paralisada há meses.
O que ainda não se sabe é se o NCAG conseguirá de fato assumir o controle efetivo do enclave e se Israel aceitará retirar suas tropas em contrapartida. Ali Shaath afirmou estar pronto para governar assim que os recursos e as condições estiverem disponíveis, mas o cronograma da transição, a fonte de financiamento da reconstrução e o destino do arsenal do Hamas permanecem sem definição.