A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) suspendeu quatro das doze empresas autorizadas a operar voos panorâmicos de helicóptero na cidade do Rio de Janeiro e impediu nove aeronaves de voar. O balanço foi apresentado em 18 de agosto, em entrevista coletiva no Centro de Operações e Resiliência da prefeitura, pelo diretor-presidente da agência, Tiago Chagas Faierstein, ao lado do prefeito Eduardo Cavaliere. Das dezoito aeronaves auditadas até então, metade teve a operação interrompida, e nove das doze empresas já haviam passado por fiscalização.
O gatilho da operação foram três acidentes com helicópteros na capital fluminense em oito meses, que somaram treze mortes. Em 8 de agosto, uma aeronave caiu na mata da Vista Chinesa, na Floresta da Tijuca, matando três turistas de uma mesma família e o piloto. Em 14 de junho, dois helicópteros colidiram no ar e caíram na região da Barra da Tijuca, com seis mortos. A intensificação da fiscalização partiu de um pedido formal da administração municipal.
Os três lados da cobertura convergem nos números e no achado central da auditoria. Veículos de esquerda relataram a coletiva com detalhe, nomearam as quatro empresas suspensas, Voos Rio Panorâmico, Broad Fly, Nobre Turismo e Mr. Top Fly, e contextualizaram o caso com dados do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos: entre janeiro de 2025 e junho de 2026, o estado do Rio concentrou 204 das 317 ocorrências com helicópteros registradas no país. A cobertura de centro trouxe o mecanismo da irregularidade com mais precisão: técnicos identificaram que duas empresas registravam dez minutos de voo em trechos que duraram trinta, e como o intervalo de manutenção é calculado pelo tempo de uso da aeronave, a subdeclaração empurrava a revisão para a frente. Até o fechamento desta edição, veículos de direita não haviam publicado cobertura própria do caso.
A lista de falhas encontradas vai além do registro de horas. A auditoria apontou tentativas de obstruir o trabalho dos fiscais, ausência de documentos que comprovem o Sistema de Gerenciamento da Segurança Operacional, que é o plano de contingência para acidente ou pouso de emergência, uma empresa sem programa de teste para identificar uso de drogas por pilotos e falta de controle de jornada e de folga dentro do programa de combate à fadiga. Cada caso vai virar processo administrativo, com punições que podem ir de multa à perda definitiva do registro para voo turístico. Em paralelo, a prefeitura revogou a permissão de cinco empresas para usar o heliponto da Lagoa, na Zona Sul, depois de identificar que o espaço servia para desembarque de passageiros, o que contraria a regra de retorno ao ponto de partida.
A divergência de enquadramento aparece no que cada lado escolhe cobrar. A cobertura de esquerda dá peso ao intervalo entre as mortes e a ação do regulador, e à admissão do próprio diretor-presidente de que a agência não tem condições de fiscalizar todas as empresas do país, o que remete à capacidade do Estado. A cobertura de centro abre espaço para o contraditório dos operadores e para a crítica técnica ao órgão: o advogado da Voos Rio Panorâmico afirma que a suspensão preventiva é rotina e reclama que a Anac não identificou quais empresas fraudaram os relatórios, o que deixa as quatro sob suspeita, enquanto o perito em segurança de aviação Daniel Kalazans sustenta que a agência é mais reativa que preventiva e lembra que falha de manutenção esteve entre as causas apontadas em acidentes anteriores. Faierstein respondeu que nomes e punições só serão divulgados ao fim dos processos, porque todos têm direito de defesa.
A agência anunciou ainda a revisão do regulamento que disciplina os voos panorâmicos, o RBAC 136, com consulta pública, e a extensão da auditoria a táxi aéreo, aviação particular e voos offshore para plataformas na Bacia de Campos, trabalho previsto para terminar em duas semanas. Uma proposta de atualização das regras deve ser apresentada em audiência de conciliação marcada para 24 de setembro, em ação na qual o Ministério Público Federal questiona a poluição sonora provocada por helicópteros sobre a Zona Sul.
O que ainda não se sabe é quais das quatro empresas suspensas falsificaram os registros de horas, se houve responsabilização de pilotos ou de empresas de manutenção, qual o prazo real de conclusão dos processos administrativos e se as irregularidades encontradas têm relação de causa com os três acidentes.