O decano do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, afirmou na quarta-feira, 19 de agosto de 2026, que a promessa de abrir processo de impeachment contra ministros da Corte é uma bandeira eleitoral e que quem for eleito senador com esse discurso terá, nas palavras dele, “imensas dificuldades de implementá-la”. A declaração foi dada a jornalistas depois de um evento em Brasília, a menos de dois meses da eleição de outubro, quando serão escolhidos 54 dos 81 senadores, dois por estado, para mandatos de oito anos.
Mendes classificou a proposta como “um equívoco, mas um equívoco compreensível”, porque, segundo ele, “algumas pesquisas indicam que isto tem um apelo eleitoral”. Disse que não se sente ameaçado: “Eu sou um enfermeiro que já viu sangue. Então, não me impressionam essas promessas de campanha”. Questionado sobre o que ocorreria caso o senador Flávio Bolsonaro, candidato do Partido Liberal à Presidência, vencesse a eleição com maioria aliada no Senado, o decano desconversou: “Não avalio. Não imagino e também não vou trabalhar sobre cenários neste momento”. Para o ministro, a dificuldade viria do “todo institucional”, que “caminhará talvez num outro sentido”.
A cobertura de centro, que reúne a maior parte das matérias sobre o caso, reproduziu as falas na íntegra e acrescentou a aritmética que sustenta a disputa. Flávio Bolsonaro divulgou uma lista com 47 candidatos ao Senado que têm seu apoio, nas 27 unidades da Federação. Levantamento citado nessa cobertura aponta que ao menos 39 desses nomes, ou 83% do total, já defenderam publicamente o impedimento de membros da Corte, com destaque para o ministro Alexandre de Moraes. Para condenar um ministro do Supremo à perda do cargo são necessários ao menos 54 votos no Senado, e o objetivo do campo bolsonarista é somar essa maioria com aliados da centro-direita e do Centrão, eleger o próximo presidente da Casa e destravar as dezenas de pedidos de impeachment parados no Congresso. As mesmas matérias nomeiam candidaturas que adotaram o tema em Goiás, no Distrito Federal, em Mato Grosso e no Mato Grosso do Sul, e registram que o ex-governador Romeu Zema, também candidato à Presidência, foi além ao dizer, no mesmo dia: “Se Deus quiser, nós vamos ter renovação no Senado e impeachment desses ministros. E, se depender de mim, prisão”.
Entre os veículos de direita que cobriram a coletiva, o recorte foi outro. O foco recaiu sobre as aspas do ministro e sobre dois temas que ele tratou em seguida: a confiabilidade do sistema eletrônico de votação e a discussão sobre verbas retroativas e os chamados “penduricalhos” do Judiciário, sobre a qual Mendes disse que a Corte “chegou a um bom termo” desde o ano passado. Nessa cobertura ficaram de fora os números da articulação eleitoral, o quórum de 54 votos e a menção à candidatura presidencial que organiza as chapas ao Senado. Já veículos de esquerda não haviam registrado a declaração até o fechamento desta reportagem, o que deixa sem cobertura direta o enquadramento que trata a ofensiva contra o Supremo como resposta ao julgamento dos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023.
Há convergência sobre os demais assuntos da entrevista. O decano defendeu a operação de busca e apreensão autorizada por Alexandre de Moraes contra informantes do jornalista Luís Pablo, no Maranhão, autor de textos sobre o ministro Flávio Dino, e disse não enxergar ali ameaça à liberdade de imprensa, comparando a medida a buscas em escritórios de advocacia quando há “elementos fortes indicando práticas de crime”. Sobre a possibilidade de o Supremo reabrir a decisão que dispensou o diploma para o exercício do jornalismo, afirmou que o tema pode ser discutido, mas não a partir de fatos “graves ocorridos no estado do Maranhão”. Disse ainda não esperar ofensiva dos Estados Unidos contra o processo eleitoral brasileiro e lembrou que o Itamaraty rejeitou a tentativa do governo Donald Trump de enviar observadores.
O que ainda não se sabe é o essencial. Nenhuma das reportagens estima quantas das 54 cadeiras em disputa o campo favorável ao impeachment tende a conquistar, nem se os pedidos hoje parados no Congresso seriam efetivamente pautados por um novo presidente do Senado. Não há resposta dos candidatos citados às declarações do decano, não há prazo para a eventual revisão da regra sobre o diploma de jornalista e o próprio ministro se recusou a avaliar o cenário em que a maioria pretendida se concretize.