O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15), considerado a prévia da inflação oficial, registrou deflação de 0,40% em agosto, informou o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). É a primeira taxa negativa do indicador em um ano e a maior queda para um mês de agosto desde 2022. O resultado veio mais forte do que o esperado por analistas, cuja mediana de estimativas apontava recuo entre 0,31% e 0,32%.
O fator determinante foi o preço da energia elétrica residencial, que caiu 6,25% no mês com a incorporação do Bônus de Itaipu às faturas emitidas em agosto. Sozinho, o item retirou 0,26 ponto percentual do índice geral, a maior contribuição individual negativa. O grupo Habitação, que abriga a conta de luz, teve a maior baixa entre os ramos pesquisados, de 1,41%. Em Transportes, a queda de 1% foi puxada pelas passagens aéreas, que recuaram 13,30% depois de subirem 11,70% em julho, e pelos combustíveis, com gasolina 1,23% e etanol 3,63% mais baratos. Alimentação e bebidas teve deflação de 0,57%, com a alimentação no domicílio caindo 0,97% e destaques como tomate (-27,38%), batata-inglesa (-25,14%) e cenoura (-17,05%). As 11 áreas pesquisadas tiveram variação negativa: Curitiba liderou a queda, com -0,82%, enquanto São Paulo, de maior peso no cálculo, recuou apenas 0,06%. No acumulado de 12 meses, o IPCA-15 desacelerou de 4,52% para 4,24%, voltando a ficar abaixo do teto de 4,5% da meta perseguida pelo Banco Central pela primeira vez desde abril. Esses números são idênticos em toda a cobertura, e nenhum lado os contesta.
A divergência está no peso que cada enquadramento dá ao alívio. Veículos de esquerda destacaram a dimensão do bolso: a queda concentrada em conta de luz, comida e transporte, itens de maior peso no orçamento de famílias de menor renda, com ênfase no fato de o desconto ter vindo da comercialização de energia de uma usina pública. Essa cobertura descreveu os grupos que caíram e as regiões beneficiadas sem discutir a duração do efeito. A cobertura de centro apresentou o dado com a moldura de política econômica: comparou o resultado ao consenso de mercado, explicou a diferença entre IPCA-15 e IPCA cheio, registrou que o bônus é um crédito anual e temporário, com tendência de reversão a partir de setembro, e lembrou que o Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu a taxa básica de juros para 14% ao ano, quarta baixa consecutiva de 0,25 ponto percentual, com a avaliação de que a inflação segue pressionada pela demanda. Do lado da direita, ainda sem cobertura direta neste conjunto de fontes, a leitura provável dos fatos disponíveis enfatiza o caráter artificial da deflação e o comportamento do núcleo: os serviços mais dependentes de demanda aceleraram de 0,42% para 0,50% no mês, o boletim Focus projeta IPCA de 5,02% em 2026, acima do teto da meta, e a bandeira tarifária amarela seguiu acionada, cobrando R$ 1,885 a cada 100 kWh. Também na ponta das altas, leite longa vida (3,41%), cigarro (5,56%) e conserto de automóvel (1,50%) continuaram pressionando o índice.
O que ainda não se sabe é o tamanho da devolução. Nenhuma das reportagens quantifica quanto da queda da energia elétrica será revertida em setembro, nem estima o efeito líquido disso sobre o IPCA do próximo mês. Também não há projeção fechada para o impacto do fenômeno climático El Niño sobre a safra e, por consequência, sobre os preços de alimentos e de energia no segundo semestre. O número que fecha a conta de agosto sai em 11 de setembro, quando o IBGE divulga o IPCA cheio, e é a partir dele que o Copom calibrará a próxima decisão de juros.