O presidente Luiz Inácio Lula da Silva reuniu-se na quarta-feira, 26 de agosto, no Palácio da Alvorada, com o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, e os três anunciaram um acordo para destravar propostas de interesse do Palácio do Planalto na última semana de votações antes do primeiro turno das eleições. O esforço concentrado do Congresso Nacional está previsto para o período de 31 de agosto a 4 de setembro. Ao posar para a foto ao lado dos dois chefes do Legislativo, Lula resumiu o novo momento da relação com uma frase que virou manchete: poderia dizer juntos para sempre.
Cinco matérias entraram na lista. A primeira é a medida provisória que encerra a cobrança de 20% sobre compras internacionais de até 50 dólares, conhecida como taxa das blusinhas. Em seguida vêm a proposta de emenda à Constituição que acaba com a escala 6x1, a PEC da Segurança Pública, o projeto que regulamenta a exploração de minerais críticos e o projeto que cria o Redata, plano de incentivo à instalação de data centers no país. Todas já passaram pela Câmara e estavam paradas, a maior parte delas no Senado.
A cobertura de centro relatou que a medida provisória das blusinhas é a única com compromisso explícito de conclusão, porque perde validade em 8 de setembro. A comissão mista que vai analisá-la será instalada em 1º de setembro, com a presidência indicada pela Câmara e a relatoria pelo Senado, divisão que travou o colegiado no início do mês. Depois da comissão, o texto ainda precisa passar pelos plenários das duas Casas. Já as duas PECs foram encaminhadas à Comissão de Constituição e Justiça do Senado sem menção a votação em plenário. O relator da proposta que acaba com a escala 6x1, senador Omar Aziz, pretende apresentar parecer e levar o texto ao colegiado em 2 de setembro. A proposta reduz a jornada máxima semanal de 44 para 40 horas, sem corte de salário, prevê dois dias de descanso remunerado e implantação gradual. Sobre a PEC da Segurança, Lula reafirmou que criará o Ministério da Segurança Pública caso o texto seja promulgado.
Veículos de esquerda destacaram o encontro como marco histórico e como vitória dos trabalhadores, com a leitura de que a escala 6x1 e a jornada de 44 horas estão com os dias contados. Nessa narrativa, a convergência entre Executivo e Legislativo mostra que direitos sociais avançam quando há vontade política, e o fim do tributo sobre compras internacionais é apresentado como alívio para o consumo popular. Esses textos não registram os bastidores de troca política nem a ressalva de que as duas PECs seguem sem garantia de plenário.
A cobertura de centro acrescentou a camada de cálculo eleitoral que falta ao outro lado. Ela descreve as propostas como vitrines de campanha para um presidente que disputa a reeleição, aponta que governistas apostam na sintonia com o Congresso para reagir às revelações sobre a investigação da Polícia Federal contra Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, por suposto uso de acesso privilegiado ao governo, e registra que adversários pretendiam deixar a medida provisória caducar para impor uma derrota simbólica às vésperas do pleito. O mesmo material expõe o preço do acordo: Davi Alcolumbre tem no horizonte apoios no Amapá e a recondução à presidência do Senado em 2027, e Hugo Motta busca respaldo à própria recondução na Câmara e à candidatura do pai, Nabor Wanderley, ao Senado. Também é dessa cobertura o registro de que Lula e Alcolumbre passaram mais de três meses sem diálogo depois de o Senado rejeitar a indicação de Jorge Messias, advogado-geral da União, ao Supremo Tribunal Federal. Veículos de direita não cobriram o encontro no material reunido para esta análise, e por isso o ângulo de custo empresarial da redução da jornada e de renúncia de receita no fim da taxa das blusinhas aparece aqui apenas como leitura provável desse campo, não como cobertura verificada.
O que ainda não se sabe é justamente o desfecho. Não há data marcada para votação em plenário da PEC do fim da escala 6x1 nem da PEC da Segurança Pública, e o próprio acordo se limita ao trâmite em comissão. Não foi divulgado o cronograma da redução gradual da jornada, nem o impacto do fim do tributo sobre compras internacionais na arrecadação. No caso dos minerais críticos, Alcolumbre condicionou a deliberação a negociações com senadores que cobram alterações no texto, e no Redata prometeu apenas pautar a matéria, sem data de votação.