Parlamentares de oposição ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e aliados do senador Flávio Bolsonaro tentam marcar uma reunião com o presidente da Câmara, Hugo Motta, e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, para frear a pauta que os dois acertaram com o Palácio do Planalto. O acordo foi fechado na quarta-feira, 26 de agosto, num almoço de duas horas e meia no Palácio da Alvorada, e organiza o que Câmara e Senado vão deliberar entre 31 de agosto e 4 de setembro, o último período de votações antes das eleições de outubro. Lula e Flávio Bolsonaro são os principais candidatos à Presidência da República.
A cobertura de centro e a de direita convergem no essencial do que foi combinado. A Medida Provisória que encerra a chamada taxa das blusinhas, tributação sobre compras internacionais de baixo valor, terá todas as votações concluídas na semana do esforço concentrado, sob o prazo de 8 de setembro, quando o texto perde a validade. Também entram na pauta o projeto que regulamenta a exploração de minerais críticos e o que cria o Redata, plano de incentivos ao setor de data centers. Já a proposta de emenda à Constituição que acaba com a escala de trabalho 6x1 e a PEC da Segurança, que reforça o papel da União no enfrentamento às facções, seguem para a Comissão de Constituição e Justiça do Senado sem compromisso anunciado de votação em plenário. A PEC da Segurança está pautada na comissão para 2 de setembro. Os dois relatores, Omar Aziz e Rogério Carvalho, já afirmaram que pretendem manter os textos aprovados pela Câmara, para evitar que as propostas voltem à análise dos deputados.
A divergência começa no que cada lado escolhe iluminar. A cobertura de centro concentrou-se na engenharia parlamentar da reação: relatou que o líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante, confirmou a intenção de conversar com os presidentes das duas Casas na próxima semana, e registrou que os oposicionistas evitam atacar o mérito das medidas, de apelo popular reconhecido, preferindo o argumento de que propostas dessa complexidade não deveriam ser analisadas em ritmo acelerado durante o período eleitoral. Detalhou ainda as emendas em disputa, como a de Hamilton Mourão, que tenta submeter a redução de jornada a convenção coletiva, e a de Damares Alves, que propõe permitir aos estados legislar sobre direito penal e processual.
Veículos de direita enfatizaram a contrapartida do pacto. Segundo essa cobertura, Lula prometeu apoiar a recondução de Motta à presidência da Câmara e de Alcolumbre ao comando do Senado em fevereiro de 2027, enquanto os dois se comprometeram a trabalhar pela reeleição do presidente. O relato acrescenta que Motta já havia declarado apoio público ao petista em 10 de agosto e que Alcolumbre travava pautas do Planalto desde a rejeição do nome de Jorge Messias a uma vaga no Supremo Tribunal Federal, quadro revertido após um jantar de reaproximação no início de agosto. O mesmo texto situa o acordo num momento de desgaste do governo, marcado por investigações da Polícia Federal envolvendo Fábio Luís Lula da Silva e pela redução da vantagem do presidente nas pesquisas de intenção de voto, associação que os artigos não demonstram ter relação de causa com o acerto legislativo.
No conjunto reunido até aqui não há cobertura de veículos de esquerda, e essa é a lacuna mais visível do caso: o ângulo do conteúdo das duas PECs, o efeito da mudança de jornada sobre trabalhadores e a origem dos recursos previstos para a segurança pública ficam sem tratamento próprio, aparecendo apenas de passagem nas reportagens de centro e de direita.
O que ainda não se sabe é se as duas PECs chegam de fato ao plenário do Senado antes de outubro, já que Alcolumbre falou em debate e deliberação sem prometer conclusão. Também não está definida a data da reunião pedida pela oposição, nem se as emendas e os destaques anunciados terão força para alterar os textos. Não há, nas reportagens, manifestação do Palácio do Planalto sobre a acusação de uso eleitoral da pauta legislativa, nem resposta dos relatores às propostas de mudança apresentadas por senadores da oposição.