O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), afirmou que a remuneração de um magistrado garante apenas uma condição média de vida e não permite a pretensão de ficar rico. A declaração foi feita em 21 de agosto de 2026, no encerramento do V Seminário Nacional da Associação Nacional de Magistrados Evangélicos (Anamel), realizado na Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo. Cinco dias depois, na quarta-feira, 26 de agosto, o ministro publicou um vídeo em que reforça a ideia de propósito na magistratura e diz que quem coloca o coração no poder ou no dinheiro vai se frustrar, acrescentando que não deixou de ser humano nem se tornou diferente do restante da população por ocupar uma cadeira na Corte.
Os números que circulam junto com a fala vêm do Portal da Transparência do STF. O subsídio mensal de um ministro do Supremo é de R$ 46.366,19, valor que serve de referência para o teto do serviço público brasileiro. Em julho, a remuneração bruta de Mendonça, já somadas outras verbas, chegou a R$ 57.957,14, enquanto o valor líquido do mês ficou em R$ 30.473,47. Entre janeiro e julho, os rendimentos líquidos variaram de R$ 18.881,92, em abril e maio, a R$ 43.028,21, em janeiro, somando R$ 182.029,10 no período, uma média mensal de R$ 26.004,16. No mesmo evento, o ministro disse que os dois primeiros anos no Supremo foram períodos de muita infelicidade, que hoje enxerga o cargo muito mais pelo ônus e pela responsabilidade e classificou a carga de trabalho como uma sobrecarga desumana. Ele também relatou ter se afastado temporariamente da pregação religiosa depois de ser indicado por Jair Bolsonaro, que o apresentou como terrivelmente evangélico.
Toda a cobertura converge no essencial. A fala existiu, foi feita diante de magistrados evangélicos, e o próprio ministro reconheceu que sua remuneração está muito acima da realidade da maioria dos brasileiros, ainda que a tenha classificado como classe B. Há convergência também sobre os valores oficiais, sobre a data do seminário e sobre o fato de Mendonça estar no Supremo desde dezembro de 2021, atualmente como relator das apurações que envolvem o Banco Master e os descontos indevidos em aposentadorias e pensões do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
As ênfases, no entanto, se separam. Veículos de esquerda trataram o episódio como retrato de privilégio: contrapuseram o contracheque de quase R$ 60 mil brutos à renda da maioria da população, destacaram a autoclassificação em classe B e enquadraram a declaração como reclamação de quem está no topo do funcionalismo. A cobertura de centro concentrou-se na reprodução extensa da fala e no cotejo com os dados oficiais, distinguindo subsídio, bruto e líquido, e lembrou que a declaração ocorre em meio à disputa sobre os chamados penduricalhos: o Supremo tentou limitar auxílios que ultrapassam o teto, tribunais regionais seguem registrando pagamentos acima do limite, e em 24 de agosto o Supremo e os tribunais superiores criaram uma gratificação para assessores de ministros capaz de ampliar em até 22,5% a remuneração desses servidores, sem alcançar os próprios ministros. Veículos de direita deram primazia à resposta do ministro, apresentando o vídeo sobre propósito como reação à repercussão e lembrando o peso das relatorias sensíveis que estão sob sua responsabilidade.
Alguns pontos seguem em aberto. As transcrições de uma mesma frase divergem entre as coberturas: parte registra que a classe B não tem que se preocupar com as contas no fim do mês, outra parte reproduz o trecho como não é uma classe que não tem que se preocupar com as contas no fim do mês, sentido oposto, e o áudio íntegro do seminário não foi disponibilizado. Também não há, até aqui, manifestação oficial do Supremo, da Anamel ou de associações de magistrados sobre a repercussão, nem detalhamento de quais verbas elevaram a remuneração bruta de julho acima do subsídio, se retroativos, indenizatórias ou auxílios permanentes.