Um tribunal de apelação francês manteve nesta terça-feira a condenação de Marine Le Pen por desvio de recursos do Parlamento Europeu, mas reduziu a punição eleitoral que ameaçava tirá-la da disputa presidencial. Horas depois, em entrevista ao telejornal da TF1, a líder do Reagrupamento Nacional anunciou que será candidata à Presidência da França em 2027, pela quarta vez. 'Hoje à noite, eu sou candidata', declarou. 'Não vou mudar de ideia.'
A cobertura de centro relatou os termos da decisão com precisão. A Justiça manteve a condenação de Le Pen por uso indevido de cerca de € 474 mil em verbas europeias entre 2009 e 2016, quando ela era deputada do Parlamento Europeu. O tribunal, porém, reduziu a inelegibilidade de cinco anos para 45 meses, com dois terços suspensos, e considerou cumprida a parte efetiva da punição eleitoral. Le Pen deverá cumprir o restante da pena em prisão domiciliar, com tornozeleira eletrônica. Ela anunciou recurso à mais alta Corte do país, manobra que, segundo afirmou, adia o cumprimento da pena e permite que viaje sem as restrições do monitoramento.
Os veículos de direita enfatizaram a força política de Le Pen. Seu partido é hoje o mais popular da França e tem a maior bancada na Assembleia Nacional, e ela lidera as pesquisas de intenção de voto para suceder Emmanuel Macron, que a derrotou em 2017 e 2022 e está impedido de disputar um terceiro mandato consecutivo. Nessa leitura, a redução da inelegibilidade corrige um excesso judicial e devolve ao eleitor a decisão final. 'O povo francês terá a palavra final', afirmou a candidata, que enquadra a disputa como uma batalha contra a elite do establishment. Essa cobertura também registrou a trajetória de moderação do partido ao longo de duas décadas: Le Pen abandonou bandeiras como a saída do euro e da União Europeia, recuou em pautas culturais e assumiu a legenda em 2011, sucedendo e depois expulsando o próprio pai, Jean-Marie.
Veículos de esquerda ainda não haviam coberto o episódio até o fechamento desta edição, mas a leitura provável desse campo, com base nos fatos relatados, enfatizaria o problema moral de disputar a Presidência mantendo uma condenação por desvio de dinheiro público. Nessa direção aponta a fala já registrada do líder do Partido Socialista, Olivier Faure, para quem Le Pen deve um pedido de desculpas ao povo francês e não deveria concorrer. Críticos de centro, como os ex-primeiros-ministros Édouard Philippe e Gabriel Attal, cobraram explicações e apontaram um problema moral na candidatura.
Há pontos que todas as leituras reconhecem: a condenação por desvio de recursos foi mantida, a candidatura tornou-se juridicamente viável e a decisão, na prática, dá a largada para a campanha. Especialistas ouvidos veem no gesto de Le Pen de concorrer pessoalmente um sinal de que ela duvida da capacidade do jovem e ainda inexperiente Jordan Bardella, de 30 anos, de levar o partido ao poder. Ela disse que, se vencer, nomeará Bardella como primeiro-ministro.
O que ainda não se sabe é se a mais alta Corte francesa confirmará a decisão do tribunal de apelação ou poderá barrar a candidatura, e em que condições Le Pen fará campanha, já que antes havia dito que não concorreria se precisasse usar tornozeleira eletrônica. O primeiro turno está marcado para 18 de abril e o segundo para 2 de maio de 2027.