Dois terremotos que atingiram a Venezuela na última semana, o primeiro na quarta-feira, 24, e o segundo na segunda-feira, 29 de junho, transformaram-se em uma disputa sobre o acesso da ajuda humanitária ao país. Segundo o balanço mais recente do governo venezuelano, 2.295 pessoas morreram, 11.267 ficaram feridas e milhares estão desabrigadas. A Organização das Nações Unidas estima que o número de desaparecidos pode chegar a 50 mil. Enquanto as buscas entram na segunda semana, organizações humanitárias e socorristas de diferentes países dizem enfrentar entraves para atuar nas áreas mais atingidas, sobretudo na região de La Guaira.
Há convergência entre as coberturas sobre o fato central: ONGs internacionais relatam dificuldades para entrar no país e chegar às vítimas. A alemã Isar Germany afirma que seus voluntários tiveram a autorização de entrada negada e que o Ministério da Saúde venezuelano barrou, de última hora, equipes médicas estrangeiras, apesar de o próprio país ter pedido apoio internacional. O grupo chileno Topos Chile denuncia que autoridades interromperam operações para exigir documentos de identificação, sob suspeita de que socorristas fossem espiões. A entidade Amavex divulgou um vídeo mostrando um bloqueio da Polícia Nacional Bolivariana que teria impedido bombeiros de atuar. Todos os lados também registram o alerta da ONU para o risco de escassez de alimentos, água e recursos básicos.
A cobertura de veículos de direita enfatizou o caráter deliberado das restrições, tratando o governo venezuelano como uma ditadura que obstrui o socorro por razões de controle e desconfiança ideológica. Nesse enquadramento, o regime chavista militarizou La Guaira logo após os desabamentos e priorizou a burocracia em detrimento do salvamento de vidas, ainda com pessoas soterradas.
A cobertura de centro relatou o episódio como um impasse com dois lados. De um lado, as denúncias das ONGs; de outro, a justificativa das autoridades venezuelanas de que a burocratização serve para evitar a presença de pessoas não qualificadas nas áreas de risco, o que poderia atrapalhar os profissionais e aumentar o número de acidentes. Essa cobertura também trouxe o contexto geopolítico: a Venezuela alega que as sanções impostas pelos Estados Unidos dificultam uma resposta mais rápida. Após os terremotos, Washington anunciou a suspensão das sanções por quatro meses, apenas para ações de socorro, e criou um fundo de US$ 150 milhões para custear organizações humanitárias no local. A União Europeia, por sua vez, optou por manter as sanções, limitando-se a enviar ajuda humanitária.
É nesse ponto que uma leitura à esquerda encontraria ênfase: a suspensão temporária das sanções pelos Estados Unidos e a criação do fundo funcionam como reconhecimento de que o cerco econômico agrava o sofrimento da população, e a manutenção das sanções pela União Europeia penaliza os mais vulneráveis em meio à catástrofe. O contraste de ênfases é claro: enquanto veículos de direita destacaram a responsabilidade do regime venezuelano pelos entraves, a moldura de centro equilibrou denúncias e justificativas oficiais, e o ângulo das sanções abre espaço para atribuir parte da lentidão a fatores externos.
O que ainda não se sabe é a extensão real das restrições e quantas equipes foram efetivamente barradas, o número definitivo de mortos e desaparecidos, e em que medida as sanções e a militarização, isoladamente, explicam os atrasos nos resgates. Não há, até o momento, uma versão detalhada e verificável do governo venezuelano que responda ponto a ponto às denúncias das organizações humanitárias.