O Itamaraty avisou à Casa Rosada, muito antes do discurso de Javier Milei na convenção nacional do PL, que ofensas pessoais ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a outras autoridades brasileiras cruzariam uma “linha vermelha” diplomática. O recado foi transmitido por interlocutores, sem lista formal de condutas proibidas, e delimitava o ataque pessoal como o limite que não poderia ser ultrapassado, sobretudo em território brasileiro.
No último sábado (25), ao discursar no evento que confirmou a candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência, o presidente argentino chamou Lula de “presidiário” e o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, de “lixo careca”. A resposta brasileira foi convocar o embaixador em Buenos Aires, Julio Bitelli, para consultas em Brasília, desta vez sem passagem de retorno, sinal de que o governo trata o episódio como crise, e não como incidente.
A cobertura de centro relatou que o alerta não era inédito. Sinal semelhante havia sido enviado às vésperas da CPAC de Florianópolis, em 2024, quando Milei criticou o socialismo sem citar Lula e se encontrou com o ex-presidente Jair Bolsonaro, então ainda não condenado pelo Supremo. Naquela ocasião houve alívio na diplomacia brasileira, que já monitorava a retórica do líder argentino. Segundo esse mesmo relato, ficou implícito para a Casa Rosada que defesas da liberdade de expressão e do livre mercado, críticas à esquerda e ao socialismo e até gestos de apoio à direita brasileira seriam tolerados. O que não seria tolerado era a ofensa pessoal.
Há convergência sobre o que vem a seguir. O retorno de Bitelli a Buenos Aires deve ser discutido nesta quarta-feira (29), em conversa com o chanceler Mauro Vieira, encontro que também deve tratar de eventuais reações caso Milei repita os ataques. Lula não pretende responder pessoalmente ao presidente argentino, ainda que a diplomacia possa voltar a se manifestar. Nos dois relatos disponíveis, o Itamaraty aparece empenhado em preservar a relação bilateral no plano econômico e institucional, mantendo canais com empresários, indústria, universidades e governos provinciais. As visitas recentes dos ministros da Defesa, José Múcio Monteiro, e da Agricultura, André de Paula, a Buenos Aires são citadas como prova de que os contatos oficiais seguiram apesar do distanciamento entre os dois presidentes.
As ênfases, porém, diferem. Veículos de esquerda destacaram a agressividade das palavras do presidente argentino e deram espaço a uma crítica pública, feita na própria Argentina, segundo a qual Milei insulta como militante e compromete o país como presidente, com o custo das provocações recaindo sobre os argentinos. Nessa leitura, o episódio é um ataque a autoridades e a instituições brasileiras, agravado por ter ocorrido em solo brasileiro e num palanque partidário. A cobertura de centro se concentrou na engenharia diplomática: quais falas eram consideradas toleráveis, como o recado chegou à Casa Rosada, por que o embaixador foi chamado sem passagem de volta e como as relações comerciais resistiram ao atrito entre os governos. Até o momento, veículos de direita não publicaram cobertura própria sobre o alerta prévio do Itamaraty, de modo que não há registro de como esse campo enquadraria nem o aviso enviado ao governo argentino nem a convocação do embaixador.
Ainda não se sabe se Bitelli volta a Buenos Aires e em que prazo, quais medidas concretas o governo brasileiro adotaria diante de novas ofensas e se a Casa Rosada responderá formalmente ao recado prévio ou à convocação do diplomata. Também não está esclarecido quem foram os interlocutores que levaram o alerta a Milei, se houve alguma resposta argentina antes do discurso e se o desgaste terá efeito sobre os contatos oficiais que vinham sendo mantidos entre os dois países.