A disputa presidencial de 2026 ganhou nesta semana um novo eixo: o voto das mulheres. Numa maratona de atos pelo Nordeste, o presidente Lula concentrou seus discursos em acenos ao eleitorado feminino, defendendo o endurecimento das penas para o crime de feminicídio e o uso de tornozeleira para agressores. Em Luís Gomes, no Rio Grande do Norte, e em Quixeramobim, no Ceará, o petista afirmou que 'o cidadão que bater na mulher vai ter que ser punido' e associou a educação das mulheres à independência em relação aos homens.
O movimento ocorre num momento delicado para seu principal adversário, o senador Flávio Bolsonaro. Nos últimos dias, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro publicou um vídeo em que relata ter sido maltratada e desrespeitada pelo enteado, e deixou a liderança do PL Mulher, cargo que ocupava desde 2023. A crise foi agravada pela declaração do influenciador bolsonarista Paulo Figueiredo, que afirmou que 'mulher vota mal', alimentando o distanciamento desse eleitorado do campo da direita.
A cobertura de centro, como a da Folha, relatou os fatos com paridade: descreveu os gestos de Lula, mas também lembrou que o presidente acumulou ao longo do mandato declarações consideradas machistas, como quando chamou a diretora-geral do FMI de 'mulherzinha' e disse ter nomeado uma 'mulher bonita' para melhorar a relação com o Congresso. Esses veículos destacaram ainda um dado de calendário: a maratona de inaugurações acontece justamente antes de 4 de julho, data em que a legislação eleitoral passa a proibir pré-candidatos de participar de entregas de obras públicas.
Veículos de esquerda, como a CartaCapital, enfatizaram o compromisso do presidente com a proteção das mulheres e o combate ao feminicídio, apresentando a articulação dos Três Poderes no Pacto Nacional Brasil Contra o Feminicídio e enquadrando o desgaste do adversário como sintoma de um bolsonarismo fragilizado. Nessa leitura, a agenda social do petista contrasta com um campo conservador tensionado por falas misóginas.
Veículos de centro com recorte no campo bolsonarista, como o Correio Braziliense, enfatizaram a reação de Flávio: o senador lançou o plano 'Brasil por Elas', com medidas de proteção e valorização das mulheres e anúncio oficial previsto para 15 de julho, e repudiou publicamente a fala de Paulo Figueiredo, afirmando que o influenciador não integra sua campanha. Segundo o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, Michelle era vista como a mulher com mais potencial de votos do grupo, mas sinaliza possível desistência de qualquer candidatura após os conflitos familiares.
O que ainda não se sabe é como esse embate se traduzirá nas urnas. Não há, nas reportagens do cluster, números de pesquisa que quantifiquem o efeito da crise sobre a intenção de voto das eleitoras, nem definição sobre o futuro político de Michelle Bolsonaro ou o desenho final da chapa de Flávio. Também permanece em aberto o quanto o Pacto Nacional Contra o Feminicídio avançará em medidas concretas para além do discurso de campanha.