A disputa presidencial de 2026 chegou ao ponto em que as duas campanhas mais bem posicionadas passaram a tratar o desânimo do eleitor como risco central. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, prepara um movimento de estímulo ao comparecimento às urnas, preocupado com a possibilidade de que a abstenção seja decisiva no segundo turno. Do outro lado, a campanha de Flávio Bolsonaro, do PL, teme que eleitores de candidatos derrotados no primeiro turno simplesmente não voltem a votar. Os dois nomes chegam a este momento com índices de rejeição superiores a 40%, e nenhum deles reproduz até aqui a mobilização vista nas eleições de 2018 e 2022.
A cobertura de centro relatou os bastidores dessa engenharia eleitoral. Segundo esse relato, Lula quer reforçar a mensagem de que eleitores com mais de 70 anos compareçam mesmo sem obrigação legal, já que a legislação eleitoral dispensa essa faixa do voto obrigatório e as pesquisas mostram vantagem do petista nesse perfil. A campanha também pretende mobilizar influenciadores e cantores, repetindo o movimento de artistas que marcou o pleito anterior, e associar a candidatura do senador a um retorno de Jair Bolsonaro ao Palácio do Planalto. Na campanha de Flávio Bolsonaro, o cálculo é inverso: hoje a maior parte dos votos de Renan Santos, do Missão, de Ronaldo Caiado, do PSD, e de Romeu Zema, do Novo, migraria para ele em um eventual segundo turno, e a ausência desse eleitorado nas urnas favoreceria o adversário.
Veículos de direita trataram o mesmo tabuleiro por outro ângulo, o do comportamento dos partidos. A análise publicada nesse campo parte da decisão da União Progressista e do Republicanos de permanecerem neutros na eleição presidencial e em boa parte das disputas estaduais, e rejeita a explicação fácil do fisiologismo. O argumento é que, em um presidencialismo multipartidário, há dois caminhos para chegar ao poder: lançar candidato competitivo à Presidência, estratégia de alto risco e alto retorno, ou concentrar recursos na eleição da maior bancada possível no Congresso, para se tornar peça obrigatória da coalizão formada depois da eleição. Quem disputa e perde precisa negociar, no dia seguinte, com quem combateu por meses, um custo reputacional elevado em ambiente polarizado. Quem permanece neutro preserva opções e pode liberar diretórios estaduais para alianças locais sem transformar a organização nacional em adversária de nenhum dos polos.
Veículos de esquerda não cobriram o episódio no material reunido nesta story, de modo que não há registro do enquadramento desse campo sobre a abstenção nem sobre a neutralidade dos partidos do Centrão.
Os dois relatos disponíveis convergem em um ponto: a eleição deste ano mobiliza menos o eleitorado do que as anteriores, e o desfecho pode depender menos de convencer indecisos do que de levar às urnas quem já escolheu. Divergem no que consideram determinante. A apuração de bastidores atribui o resultado ao comparecimento e às ações que cada campanha conseguir montar para garanti-lo. A análise de comportamento partidário sugere que, definido o presidente, o poder efetivo continuará passando pela bancada do Congresso e pelos partidos que se mantiveram disponíveis para negociar com o vencedor.
Ainda não se sabe qual será o tamanho real da abstenção, se as campanhas conseguirão converter apelo digital em comparecimento efetivo, nem como União Progressista e Republicanos se posicionarão diante de um eventual segundo turno. Também não há detalhamento público sobre o formato, o custo e o calendário das ações de estímulo ao voto descritas nos bastidores, nem identificação dos institutos responsáveis pelos números de rejeição citados.