O presidente Luiz Inácio Lula da Silva recebeu na noite de quarta-feira, 19 de agosto, no Palácio da Alvorada, o advogado Marco Aurélio de Carvalho, que acumula duas funções pouco usuais de serem exercidas ao mesmo tempo. Ele coordena a campanha presidencial em São Paulo e é o responsável pela defesa de Fábio Luís Lula da Silva, filho do presidente, alvo de três inquéritos da Polícia Federal autorizados por ministros do Supremo Tribunal Federal. O encontro durou mais de três horas e teve também a presença de Fernando Haddad, ex-ministro da Fazenda e candidato do Partido dos Trabalhadores ao governo paulista.
Os três lados da cobertura convergem no essencial. A reunião existiu, foi longa, aconteceu na residência oficial da Presidência e teve como pauta declarada a disputa eleitoral em São Paulo. Todos registram que, segundo o próprio advogado, as investigações contra o filho do presidente apareceram apenas de forma lateral na conversa, e que Lula teria dito que o filho precisa prestar esclarecimentos se for chamado por qualquer autoridade, porque não está acima da lei. Também é ponto pacífico que, até agora, não há acusação formal apresentada contra Fábio Luís, e que as apurações seguem em andamento.
A cronologia dos inquéritos foi detalhada com precisão pela cobertura de veículos de direita. Em 30 de julho, o ministro André Mendonça autorizou a abertura de investigação sobre suspeitas de tráfico de influência e corrupção, ligadas a uma possível atuação em favor do lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS, em processo relativo à autorização para comercialização de cannabis medicinal no Ministério da Saúde. No dia seguinte, o mesmo ministro liberou uma segunda apuração, sobre negócios envolvendo a Dataprev, empresa pública que administra dados sociais do governo federal, e que menciona viagem supostamente custeada pelo empresário Cleber Ribas de Oliveira. Em 4 de agosto, o ministro Flávio Dino autorizou o terceiro inquérito e determinou ainda uma apuração específica sobre o vazamento de informações sigilosas dos próprios casos.
A divergência aparece no significado atribuído ao encontro. Veículos de esquerda destacaram o caráter eleitoral da conversa, o balanço do ato de abertura de campanha na Vila Euclides, em São Bernardo do Campo, e a fala presidencial de que o filho terá de se explicar como qualquer cidadão. Nessa cobertura, o ponto mais grave não é a reunião, e sim o que o advogado classificou como vazamento seletivo e criminoso partido de setores da Polícia Federal, prática que, segundo ele, também prejudica o diretor-geral da corporação, Andrei Rodrigues, e os ministros André Mendonça e Flávio Dino. A cobrança apresentada é por tratamento isonômico ao investigado.
A cobertura de centro tratou o episódio como controle de danos e colocou a pergunta em outros termos: se o gesto do Palácio do Planalto é de transparência ou de blindagem. Nessa leitura, o discurso público de cobrança convive com movimentação de bastidores voltada a mapear a atuação de agentes da Polícia Federal e do Supremo Tribunal Federal no processo, afirmação que o texto atribui a indícios de bastidores, sem fonte nomeada.
Já veículos de direita enfatizaram a sobreposição de papéis do advogado, que defende o filho do presidente e ao mesmo tempo comanda a campanha em São Paulo, e registraram que o assunto teria entrado na conversa por iniciativa dele, não por pauta original do encontro. O acúmulo de três autorizações judiciais em menos de uma semana é o elemento central dessa cobertura, que também reproduz a defesa de que a condução será transparente e submetida ao sigilo profissional.
O que ainda não se sabe é o conteúdo efetivo da conversa além do relato do próprio advogado, já que não há registro público do encontro nem versão de outros participantes sobre o trecho referente aos inquéritos. Segue em aberto se Fábio Luís será convocado a depor e em que prazo, quem são os responsáveis pelos vazamentos apurados por determinação de Flávio Dino, e se as apurações resultarão em denúncia. Nenhuma das coberturas traz resposta da Polícia Federal à acusação de vazamento seletivo, nem manifestação direta do presidente sobre o tema, que chegou ao público apenas pela reprodução de terceiros.