O presidente Luiz Inácio Lula da Silva recebeu na noite de quarta-feira, 19 de agosto de 2026, no Palácio da Alvorada, o advogado Marco Aurélio de Carvalho, que defende seu filho mais velho, o empresário Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha. Segundo o próprio advogado, o presidente orientou que o filho se coloque à disposição da Justiça para prestar esclarecimentos. Fábio Luís é alvo de três inquéritos no Supremo Tribunal Federal que apuram suspeita de tráfico de influência, abertos a partir de desdobramentos da investigação sobre fraudes no Instituto Nacional do Seguro Social. O encontro não constava da agenda oficial da Presidência e contou também com a presença de Fernando Haddad, candidato do Partido dos Trabalhadores ao governo de São Paulo.
Toda a cobertura converge em um conjunto de fatos. Marco Aurélio de Carvalho é um dos fundadores do grupo Prerrogativas, interlocutor antigo do presidente e coordenador da campanha de Lula em São Paulo para a eleição de outubro. A reunião, segundo interlocutores ouvidos por diferentes redações, foi marcada para tratar do cenário eleitoral paulista e da disputa ao Senado, e o caso do filho entrou na conversa. As reportagens registram que Carvalho reclamou de vazamentos seletivos atribuídos a setores da Polícia Federal e reproduzem a frase com que resumiu sua posição: ninguém está acima da lei, mas também não pode ser tratado como se estivesse abaixo dela. Também é ponto comum a atribuição a Lula da declaração de que não quer uma Polícia Federal para chamar de sua nem que aliados sejam protegidos ou adversários perseguidos. Na mesma noite, o presidente cancelou a participação na posse dos ministros Luis Felipe Salomão e Mauro Luiz Campbell Marques na presidência e na vice-presidência do Superior Tribunal de Justiça.
A partir daí, a ênfase muda conforme o lado. Veículos de esquerda organizaram o relato em torno da queixa da defesa e trataram os vazamentos como o problema central do episódio, reproduzindo a avaliação de que setores da corporação agiriam por interesse eleitoral e de que o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e os ministros relatores no Supremo Tribunal Federal, André Mendonça e Flávio Dino, também seriam vítimas dessa instrumentalização. Nessa cobertura, o conteúdo das suspeitas aparece em uma linha e o eixo é o devido processo legal.
A cobertura de centro concentrou-se no efeito político do caso. Registrou a preocupação do comitê de reeleição com a volta do tema da corrupção ao centro da campanha, a avaliação de auxiliares de que apenas um fato de grande porte, como uma eventual prisão, mudaria o quadro eleitoral, e a leitura de que o envolvimento do filho do presidente e do ex-chefe de gabinete pessoal Marco Aurélio Santana Ribeiro virou o ponto mais frágil da candidatura. Registrou ainda a estratégia petista de apontar que a oposição também não tem credenciais de moralidade.
Veículos de direita enfatizaram o conteúdo das investigações. Detalharam a apuração sobre a atuação de Fábio Luís em favor do empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS, preso sob acusação de desviar recursos de aposentadorias, e a tentativa, ao lado da empresária Roberta Luchsinger, de vender medicamentos à base de canabidiol ao Sistema Único de Saúde sem licitação, com minuta de contrato encaminhada ao então chefe de gabinete pessoal do presidente. Segundo relatório da Polícia Federal citado nessas reportagens, a lobista dizia agir com autorização do filho do presidente e pretendia obter 20% de lucro no negócio. Essa cobertura também sublinhou a sobreposição de papéis do advogado, defensor e coordenador de campanha ao mesmo tempo, e colocou o cancelamento da agenda no Superior Tribunal de Justiça em sequência direta com a reunião.
O que ainda não se sabe é considerável. Não há indiciamento nem denúncia formal contra Fábio Luís até aqui, e nenhuma reportagem informa se ele já foi intimado a depor ou em que prazo isso ocorreria. A Polícia Federal não respondeu publicamente à acusação de vazamentos seletivos, e não há elemento nas reportagens que identifique a origem das informações divulgadas. Também não está esclarecido em que fase estão os três inquéritos no Supremo Tribunal Federal, se a orientação do presidente resultará em depoimento espontâneo e se a negociação do canabidiol, que segundo as reportagens não avançou, gerou algum contrato ou pagamento com dinheiro público.