O presidente Luiz Inácio Lula da Silva não participará das cerimônias de posse dos presidentes eleitos do Peru, Keiko Fujimori, e da Colômbia, Abelardo de la Espriella. Segundo interlocutores do Palácio do Planalto ouvidos pelas reportagens, o presidente não tem viagens internacionais previstas no momento e, a poucos meses da eleição presidencial brasileira, a prioridade do governo é concentrar a agenda no país. O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, representará o Brasil na posse peruana, marcada para 28 de julho, em Lima. Para a cerimônia colombiana, prevista para 7 de agosto, o Itamaraty ainda não definiu a comitiva.
A cobertura de centro relatou o episódio como decisão de agenda e o situou numa reconfiguração do mapa político sul-americano. Com as vitórias de Fujimori e de Espriella, ambos de direita, o Brasil passa a ser o único grande país da região governado por um presidente de esquerda. Essas reportagens registram ainda que a Assembleia-Geral das Nações Unidas, em setembro, em Nova York, deve ser o próximo compromisso internacional do presidente brasileiro, e detalham o clima da transição colombiana: o presidente eleito quer realizar o ato em um complexo militar, enquanto o atual chefe de Estado, Gustavo Petro, afirma que não permitirá a mudança, já que a legislação do país determina que a posse ocorra no Congresso, em Bogotá. A troca de poder vem sendo marcada por atritos, depois que Espriella anunciou a suspensão do processo de transição em resposta à recusa de Petro em aceitar o resultado do pleito, contestado sem apresentação de provas. No Peru, a vitória se deu por margem de apenas 0,27 ponto percentual, também questionada pelo campo derrotado.
Veículos de direita deram destaque a outro ângulo: o do isolamento. Nessa cobertura, a ausência aparece como capítulo de uma sequência, já que em março o presidente também desistiu de comparecer à posse do presidente chileno e foi representado pelo mesmo chanceler, enquanto parlamentares de oposição estiveram no evento. Esses veículos enumeram os governos de direita ou centro-direita hoje no comando de Argentina, Bolívia, Chile, Equador e Paraguai para sustentar que o Planalto ficou sem interlocutores ideologicamente próximos na vizinhança, restando poucos alinhados na região.
Até o momento não houve cobertura de veículos de esquerda sobre o caso no conjunto analisado. A leitura provável desse campo, a partir dos mesmos fatos, enfatizaria que a representação pelo chanceler preserva a relação bilateral, que o presidente cumprimentou publicamente os dois eleitos e afirmou que a relação entre Brasil e Colômbia transcende ideologias, e que a cooperação em preservação da Amazônia e no combate ao crime organizado independe do alinhamento partidário dos governos vizinhos.
Todos os relatos convergem em pontos verificáveis: a ausência do presidente, a data das duas posses, a representação pelo chanceler em Lima e a indefinição sobre quem irá a Bogotá. A divergência está na causa atribuída. De um lado, a explicação de calendário e prioridade doméstica em ano eleitoral. De outro, a interpretação de que a decisão expressa distanciamento diante de governos recém-eleitos com orientação oposta à do Planalto.
O que ainda não se sabe é considerável. Não há manifestação oficial e pública do governo brasileiro sobre a decisão, apenas relatos de interlocutores não identificados. Não está definido quem chefiará a delegação brasileira na Colômbia, nem onde a cerimônia ocorrerá, diante do impasse entre o presidente eleito e o atual mandatário. Também não se sabe se e quando haverá encontro bilateral do presidente brasileiro com os dois novos chefes de Estado, nem qual será o efeito prático da mudança regional sobre acordos de comércio, energia e segurança de fronteira.