O vice-presidente Geraldo Alckmin afirmou na terça-feira, 21 de julho, que o governo do presidente Lula não pretende acionar a Lei da Reciprocidade contra os Estados Unidos em resposta à tarifa adicional de 25% que passa a incidir sobre produtos brasileiros a partir desta quarta-feira, 22. "A ideia não é retaliação", disse o vice-presidente, ao repetir que, no olho por olho, o que pode acontecer é os dois ficarem cegos. A fala foi dada a jornalistas depois de uma reunião com representantes de setores atingidos pela sobretaxa, ao lado do ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Márcio Elias Rosa.
A declaração muda o tom adotado pelo próprio governo na semana anterior. Quando o escritório de comércio norte-americano anunciou a medida, o Executivo brasileiro afirmou que iniciaria imediatamente os trâmites para acionar a lei aprovada por unanimidade no Congresso. Agora, a orientação declarada é negociar sempre, tratar a reciprocidade como instrumento a ser usado no momento oportuno e concentrar esforços em amortecer o impacto sobre as empresas exportadoras.
Os números centrais aparecem sem contestação em toda a cobertura. A tarifa de 25% alcança cerca de 18% das exportações brasileiras ao mercado americano, algo próximo de US$ 7,4 bilhões, o equivalente a aproximadamente R$ 38 bilhões em mercadorias. Há uma lista com mais de 800 itens de exceção, que preserva parte relevante do agronegócio, a indústria de base, o setor aeronáutico, produtos farmacêuticos e químicos, além de minerais críticos, suco de laranja, carnes e café. A resposta do governo foi estruturada em três eixos: apoio financeiro às empresas, com crédito pelo programa Brasil Soberano e flexibilização temporária das regras de drawback; diversificação de mercados, com prioridade para Índia, México, Singapura, Japão e países do Sudeste Asiático, além dos acordos do Mercosul com a União Europeia, com a EFTA e com Singapura; e diálogo permanente com os setores produtivos para dimensionar perdas. Os cálculos setoriais atribuídos à confederação da indústria mostram concentração de dano: 81% das exportações de madeira aos Estados Unidos são atingidas, contra 56% dos minerais não metálicos, 51% dos químicos e 38% dos alimentos.
A divergência está no enquadramento. Veículos de direita enfatizaram o cálculo político da decisão, sustentando que a reciprocidade foi praticamente descartada em função do impacto que teria sobre o calendário eleitoral, e que o governo aposta em ser reconhecido pelo eleitorado por ter tentado evitar o tarifaço. A cobertura de centro relatou o episódio como recuo verificável de posição, contrastando a promessa de acionamento imediato da lei com a fala de que retaliação não está em pauta, e detalhou a agenda de reuniões com entidades como as associações de fabricantes de veículos, de máquinas, de plásticos e do setor têxtil. Veículos de esquerda não publicaram análise própria do caso no recorte examinado; a ênfase que costuma marcar esse campo, a de socorro a empregos e defesa da soberania, apareceu apenas nas falas oficiais reproduzidas, como a do ministro de que o fato de a tarifa ser injusta, descabida e indevida não afasta o dever do governo de socorrer primeiro quem precisa.
O que ainda não se sabe é o tamanho e o prazo do pacote. Não há data anunciada para as novas medidas, o valor total do socorro não foi divulgado e a decisão final caberá ao presidente da República. Também segue em aberto se uma segunda rodada de sobretaxa, de 12,5%, baseada em investigação sobre trabalho forçado, será cumulativa aos 25% já anunciados, o que definiria um cenário bem mais severo para os exportadores. Nenhuma fonte respondeu quanto do prejuízo o crédito público conseguiria compensar, nem em que prazo a busca por novos compradores substituiria as vendas perdidas no mercado americano.