O Jurado Nacional de Eleições (JNE) do Peru proclamou Keiko Fujimori como presidente eleita do país, encerrando um dos processos eleitorais mais apertados da história recente peruana. Em cerimônia realizada em Lima, o presidente do órgão, Roberto Burneo, declarou vencedora a chapa da Força Popular para o mandato de 2026 a 2031. Keiko obteve 50,135% dos votos válidos contra 49,865% do adversário de esquerda Roberto Sánchez, da coalizão Juntos pelo Peru, uma diferença de apenas 49.641 votos, ou 0,27%. O segundo turno havia ocorrido em 7 de junho, e a apuração se estendeu por semanas. A posse está marcada para 28 de julho.
A cobertura de centro relatou os fatos com foco no resultado e nas reações institucionais. Após três derrotas consecutivas em 2011, 2016 e 2021, Keiko chega finalmente à Presidência, tornando-se a décima pessoa a ocupar o cargo desde 2016, num país marcado por forte instabilidade política. Os veículos de centro registraram ainda que Roberto Sánchez indicou não reconhecer o resultado e recorreu à Corte Interamericana de Direitos Humanos, alegando supostas irregularidades e mudanças de regra durante o pleito, além de problemas na gestão das cédulas no exterior.
O fato que deu à história um ângulo brasileiro foram as reações de dois polos da política nacional. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva parabenizou a nova chefe de Estado e defendeu avançar numa 'agenda bilateral ambiciosa', focada em comércio, investimentos, integração de infraestrutura logística e digital, superação da fome e da pobreza, proteção da Amazônia e combate ao crime organizado transnacional. Do outro lado, o pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro celebrou a vitória e afirmou que 'a onda azul' chegaria ao Brasil nas eleições de outubro, lendo o resultado peruano como sinal de avanço conservador no continente.
As divergências de enquadramento apareceram sobretudo na caracterização de Keiko. Veículos de esquerda enfatizaram que ela é filha e herdeira política do ditador Alberto Fujimori, condenado por corrupção e violações de direitos humanos, e destacaram que a própria Keiko já cumpriu prisão preventiva em investigações ligadas aos desdobramentos da Operação Lava Jato no Peru. Essa cobertura reiterou o rótulo de 'extrema direita', deu relevo às tentativas judiciais de barrar a proclamação e ao anúncio da coalizão de esquerda de que buscaria reverter o resultado com recursos e mobilização popular. Já a leitura de centro-direita destacou a plataforma de segurança de Keiko, sua promessa de 'guerra frontal' ao crime, leis antiterroristas mais duras e papel ampliado das Forças Armadas como resposta à alta de homicídios e extorsões, apresentando a vitória como expressão legítima da vontade das urnas num país dividido ao meio.
Há pontos em que as coberturas convergem: todos os veículos registraram a margem mínima da vitória, a condição de país fortemente polarizado, a herança controversa do sobrenome Fujimori e o recurso do derrotado às instâncias internacionais. O que ainda não se sabe é se a Corte Interamericana acolherá o pedido de Sánchez, qual será a real base de sustentação de Keiko no Legislativo peruano ao longo do mandato, e em que medida a agenda bilateral proposta por Lula avançará diante de um governo de orientação ideológica oposta à do Palácio do Planalto.