A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro anunciou na terca-feira (30) que deixa a presidencia nacional do PL Mulher, cargo que ocupava desde 2023. A saida foi comunicada em uma reuniao de quase duas horas com o presidente do Partido Liberal, Valdemar Costa Neto, e representa o desfecho de uma crise publica com o enteado, o senador Flavio Bolsonaro, pre-candidato do PL a Presidencia da Republica em 2026. Em nota, Michelle afirmou que pretende dedicar-se integralmente aos cuidados do marido, o ex-presidente Jair Bolsonaro, que cumpre prisao domiciliar, e da filha do casal.
A cobertura de centro, como a da BBC News Brasil, da CNN Brasil e da Folha de S.Paulo, relatou que o estopim do atrito foi a disputa por aliancas no Ceara. O PL avalia apoiar o ex-ministro Ciro Gomes na disputa pelo governo estadual, movimento que Michelle rejeita por considera-lo incoerente diante dos ataques que Ciro dirigiu a familia. A ex-primeira-dama tambem defendia a vereadora de Fortaleza Priscila Costa para uma vaga ao Senado, nome preterido pelo partido em favor de Alcides Fernandes. Em dois videos que somam cerca de 27 minutos, Michelle disse ter sido maltratada, humilhada e desrespeitada por Flavio em uma conversa telefonica. O senador respondeu publicamente, negou ter ofendido a madrasta e pediu desculpas, afirmando respeita-la e reconhecer seu trabalho.
Todos os lados convergem em pontos centrais: a crise e real, o cargo nacional do PL Mulher foi extinto por Valdemar Costa Neto, e ela ocorre num momento eleitoralmente delicado. Uma pesquisa AtlasIntel/Bloomberg divulgada em 1 de julho mostrou Flavio com 36,6% das intencoes de voto no primeiro turno, em queda ante os 39% de abril, enquanto o presidente Lula aparece com 46,3%. Na quarta-feira, Flavio reuniu lideracas femininas do partido em Brasilia para lancar a agenda 'Brasil Por Elas', mas o encontro expos resistencias: faltaram a propria Michelle, a senadora Damares Alves e a senadora Tereza Cristina. O senador aproveitou para repudiar 'veementemente' a fala do influenciador Paulo Figueiredo, radicado nos Estados Unidos, que afirmara que mulheres 'votam muito mal', e disse que ele nao integra a campanha.
E nas interpretacoes que a cobertura se divide. Veiculos de esquerda, como o Pragmatismo Politico e o Diario do Centro do Mundo, enfatizaram o que descrevem como o machismo estrutural do bolsonarismo, lembrando a condenacao de Jair Bolsonaro a 27 anos de prisao por tentativa de golpe e classificando o grupo como extrema-direita; para essa cobertura, Michelle foi escanteada e atacada por vozes misoginas ligadas ao nucleo do partido nos EUA. Ja a leitura mais a direita, ecoada por aliados citados nas reportagens, trata o episodio como uma divergencia interna natural em um partido grande, destaca o pedido de desculpas de Flavio e sua defesa da uniao, e ve na amplificacao do caso uma tentativa de desgastar a principal candidatura de oposicao a Lula. A cobertura de centro relatou os fatos com paridade, reproduzindo tanto as falas de Michelle quanto as respostas de Flavio. Analistas ouvidos, como o cientista politico da FGV Marco Antonio Teixeira, avaliaram que o prolongamento da crise beneficia indiretamente o governo Lula, ao tirar de cena outros desgastes.
O que ainda nao se sabe e se Michelle e Flavio se reconciliarao a tempo da campanha, se ela confirmara a candidatura ao Senado pelo Distrito Federal, quem sera a vice de Flavio e qual sera o efeito real da crise sobre o eleitorado feminino, ja que as pesquisas divulgadas podem nao ter captado ainda o impacto do episodio.