Faltando três meses para o primeiro turno das eleições de 2026, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva dedicou os últimos dias a uma maratona de inaugurações e anúncios de programas sociais e econômicos. O movimento ocorreu justamente às vésperas do chamado defeso eleitoral, período que começa em 4 de julho e proíbe candidatos à reeleição de participar de inaugurações de obras e de fazer publicidade institucional. No último dia permitido, o governo montou uma força-tarefa com sete ministros e realizou entregas simultâneas em 12 cidades, cinco delas em São Paulo, o maior colégio eleitoral do país.
A cobertura de centro relatou a dimensão do esforço com dados próprios. Um levantamento da Folha reuniu 16 medidas que mobilizam mais de R$ 180 bilhões, entre linhas de crédito com juros abaixo do mercado, garantidas por fundos estatais, e medidas com impacto fiscal direto, como a ampliação do teto de faturamento do Microempreendedor Individual e a revogação da 'taxa das blusinhas'. Entre os principais programas estão as várias modalidades do Desenrola, voltadas à renegociação de dívidas, o Move Brasil, de crédito para taxistas e motoristas de aplicativo, novas linhas para máquinas agrícolas e a ampliação da faixa de classe média do Minha Casa, Minha Vida. Parte das medidas já está em vigor; outras dependem de aprovação no Congresso.
Todos os lados convergem em pontos centrais. O calendário é fato: as convenções partidárias ocorrem entre 20 de julho e 5 de agosto, o registro de candidaturas vai até 15 de agosto e a campanha começa oficialmente no dia 16. Há consenso também de que o pacote tem motivação eleitoral e mira faixas de renda intermediária, onde, segundo o Datafolha citado nas reportagens, Lula enfrenta mais resistência, ainda que apareça à frente do senador Flávio Bolsonaro no cômputo geral.
A divergência está no julgamento das medidas. Veículos de direita enfatizaram a leitura de 'populismo eleitoral', com uso da máquina pública para obter vantagem na disputa e transferência de uma conta fiscal mais pesada ao próximo governo. Nessa cobertura, especialistas alertam que o estímulo ao crédito direcionado, em meio a juros já elevados, obriga o Banco Central a manter a Selic mais alta, e o gesto do dedo médio de Lula durante o evento no Planalto foi interpretado como sinal de tensão com o empresariado e a oposição. Veículos de esquerda, por sua vez, enquadraram as iniciativas como esforço legítimo de gestão para aliviar o endividamento das famílias e democratizar o acesso a serviços de qualidade, atribuindo boa parte do sufoco financeiro ao patamar de juros mantido pelo Banco Central, e destacaram o Plano Safra recorde e a fatia destinada à agricultura familiar.
A cobertura de centro buscou equilibrar as posições. Reportagens ouviram tanto economistas que veem risco fiscal e inflacionário quanto vozes que relativizam as críticas, como a de que qualquer governo responderia a uma guerra com subsídios a combustíveis. O Banco Central, em seu Relatório de Política Monetária, classificou o pacote como fator de risco a ser monitorado, enquanto o Ministério da Fazenda negou que as medidas tenham potencial para pressionar a inflação, avaliando seu efeito como neutro ou levemente positivo.
O que ainda não se sabe é o tamanho real do impacto fiscal e inflacionário do conjunto, já que várias medidas não têm estimativa consolidada e outras dependem do Congresso. Também permanece em aberto se o efeito eleitoral pretendido pelo governo se sustentará até outubro, diante da inflação sobre o consumo básico, e qual será o desgaste no início do próximo mandato caso a estratégia se confirme.