O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) intensificou, nas semanas que antecederam o chamado defeso eleitoral, o anúncio de medidas econômicas e sociais que já somam mais de R$ 180 bilhões, segundo levantamento da Folha de S.Paulo reproduzido por diversos veículos. O prazo é decisivo: a partir de sábado, 4 de julho, faltando três meses para o primeiro turno, ocupantes de cargos públicos que disputam a reeleição ficam proibidos de inaugurar obras, contratar servidores ou fazer publicidade institucional. Lula, que busca novo mandato, dedicou os últimos dias a uma maratona de inaugurações, incluindo entregas simultâneas em doze cidades na sexta-feira, 3 de julho, com sete ministros mobilizados.
A cobertura de centro relatou os números com detalhe. O pacote reúne 16 medidas, sendo dez ligadas a linhas de crédito com juros abaixo do mercado, e tem como alvo principal os eleitores de renda intermediária, faixa em que o presidente enfrenta resistência e disputa voto com o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Entre as iniciativas estão o Desenrola em suas várias versões, a ampliação do teto de faturamento do MEI para R$ 140 mil em 2028, a revogação da taxa das blusinhas e novas linhas de crédito para taxistas, entregadores e produtores rurais. O Banco Central e economistas ouvidos alertaram para riscos fiscais e inflacionários, enquanto o Ministério da Fazenda negou que as medidas pressionem os preços, classificando o efeito como neutro ou levemente positivo.
Veículos de esquerda enfatizaram o esforço de Lula para recuperar popularidade num ambiente de juros elevados, atribuindo parte do endividamento da população à política monetária dura do Banco Central. Essa cobertura descreveu as linhas de crédito como alívio a famílias endividadas, destacou as dificuldades do principal adversário, Flávio Bolsonaro, e enquadrou a disputa como um embate contra a influência da extrema-direita nas redes sociais e a interferência externa na eleição.
Veículos de direita, por sua vez, trataram o conjunto de medidas como uso eleitoral da máquina pública e populismo, com críticos recorrendo à imagem de 'pão e circo' e alertando que a conta chegará ao próximo mandato. Essa cobertura deu relevo ao gesto obsceno feito pelo presidente durante um discurso e à reação de setores do mercado financeiro, interpretando o episódio como sinal de tensão com empresários e com a oposição.
Há convergência entre os lados quanto ao fato central: as medidas têm motivação eleitoral e foram aceleradas antes do prazo legal, mirando eleitores de renda intermediária. As análises divergem sobre o peso fiscal. Enquanto parte dos economistas afirma que o pacote exigirá uma Selic mais alta e amplia o risco fiscal, outros ponderam que há exagero nas críticas e que não se configura crise nas contas públicas.
O que ainda não se sabe é o efeito concreto das medidas sobre a inflação e os juros nos próximos meses, se o pacote será suficiente para alterar a intenção de voto nas faixas de renda visadas e como o custo das iniciativas será absorvido pelo Orçamento a partir de 2027, quando parte dos efeitos deve se estender para o mandato seguinte.