Rogéria Bolsonaro, de 66 anos, ex-mulher de Jair Bolsonaro e mãe do senador e candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro, será candidata a deputada federal pelo Rio de Janeiro nas eleições deste ano. A decisão altera o plano original do partido, que a colocava como suplente na chapa de Márcio Canella ao Senado. O anúncio foi feito pelo próprio senador em uma publicação em rede social, na quarta-feira 29 de julho, quando ele afirmou que a mãe vai representar as famílias brasileiras.
Segundo aliados ouvidos pelas reportagens, a mudança foi definida após avaliações internas da legenda, que enxergou mais chances de vitória na disputa proporcional e a possibilidade de ampliar a bancada do PL na Câmara pelo estado. Rogéria tem trajetória própria no Rio: foi vereadora da capital fluminense por dois mandatos consecutivos, entre 1993 e 2000, e tentou voltar à Câmara Municipal em 2020, quando terminou como suplente. Ela será o único nome da família a disputar cargo no estado neste ano. Flávio deixa o Senado para concorrer à Presidência, Carlos Bolsonaro disputa o Senado por Santa Catarina, Jair Renan tenta uma vaga de deputado federal pelo mesmo estado e Eduardo Bolsonaro, que mora nos Estados Unidos e foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal por coação no curso do processo, foi anunciado como primeiro suplente de senador em São Paulo.
Toda a cobertura converge em dois pontos: a candidatura é peça de uma estratégia para capitalizar o eleitorado da família no Rio de Janeiro e ocorre em um momento de indefinição da chapa estadual. A Federação União Progressista, formada por União Brasil e PP, ainda avalia permanecer neutra na disputa pelo governo do estado, para o qual o PL lançou Douglas Ruas. O cenário ficou mais incerto depois que Márcio Canella foi preso em uma operação da Polícia Federal no início de julho, foi solto em seguida e teve a tornozeleira eletrônica retirada por decisão do Supremo Tribunal Federal.
Os enquadramentos, porém, se separam. Veículos de direita enfatizaram o tom celebratório do anúncio, reproduziram a fala do senador sobre a força, a fé e o amor da mãe pelo país e apresentaram a candidatura como continuidade natural de uma trajetória política iniciada nos anos 1990. A cobertura de centro concentrou-se nos bastidores da montagem das chapas: o cálculo interno do partido, a manutenção do nome de Canella na disputa ao Senado, a negociação da vaga de vice com o Republicanos, partido do governador Tarcísio de Freitas, e a tendência de a sigla ficar neutra e liberar os diretórios estaduais. Nessa negociação, o PL gostaria de emplacar a ex-auxiliar do Ministério da Fazenda Daniella Marques, nome que enfrenta resistência interna, e tem como alternativa uma solução própria, a deputada Priscila Costa.
Veículos de esquerda destacaram outro ângulo: a mudança de tom da campanha da oposição. Nessa leitura, a convocação de embaixadores para criticar as urnas eletrônicas e os paralelos traçados com o processo eleitoral venezuelano indicam radicalização do discurso e acendem o alerta para uma eventual contestação do resultado das urnas. Essa cobertura registra ainda que o Brasil negou vistos a dois integrantes do Departamento de Estado americano que pretendiam vir ao país lançar dúvidas sobre a integridade do sistema eleitoral, e associa a concentração de candidaturas em uma mesma família a uma estratégia de preservação de influência e de foro.
O que ainda não se sabe é decisivo para o desenho final da disputa. Não há definição sobre a permanência da Federação União Progressista na coligação fluminense, nem sobre a situação jurídica de Canella e seus efeitos sobre a candidatura ao Senado. A resposta do Republicanos sobre a vaga de vice estava prevista para a convenção nacional do partido, e o prazo legal de indicação se encerra em poucos dias. Também não há, até aqui, pesquisas de intenção de voto que meçam o desempenho de Rogéria Bolsonaro na disputa pela Câmara, nem detalhamento público das acusações que motivaram a operação da Polícia Federal.