O atrito público entre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência em 2026, e a madrasta Michelle Bolsonaro se tornou o principal desgaste da pré-campanha do filho mais velho de Jair Bolsonaro. A crise começou em 24 de junho, quando Michelle publicou dois vídeos no Instagram afirmando ter sido 'apunhalada' e maltratada pelo enteado. No dia 30 de junho, após reunião com o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, a ex-primeira-dama deixou a presidência do PL Mulher, alegando querer se dedicar aos cuidados com o marido e a filha.
Em seminário de comunicação do PL no Rio de Janeiro, Flávio evitou citar o nome de Michelle e afirmou estar 'mais forte que nunca e com a cabeça erguida' para disputar a Presidência contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Cercado por nomes femininos da sigla, como as deputadas Bia Kicis e Chris Tonietto, o senador apostou em pautas de segurança e de defesa das mulheres, prometendo 'tratar bandido como bandido', classificar o PCC como terrorismo e deixar preso agressor de mulher. Também disse que iria aos Estados Unidos defender o Pix, criticando o governo Lula pelo tarifaço sobre produtos brasileiros.
A cobertura de centro, como a de O Globo e do Poder360, relatou os fatos de forma descritiva: reproduziu as falas do senador e de aliados, reconstruiu a cronologia do conflito e registrou a estratégia da campanha de posicionar uma mulher como vice na chapa, com reuniões previstas para começar antes da convenção marcada para 25 de julho. O coordenador da campanha, Rogério Marinho, afirmou que o perfil buscado é o de alguém que 'complemente' o senador e represente valores da direita, defenda a família e a vida desde a concepção.
Veículos de direita, como a Veja, enfatizaram os dados de repercussão nas redes: um levantamento da Ágora Comunicação e Public Affairs identificou que 50,8% das menções a Flávio entre 24 de junho e 2 de julho foram negativas, com Michelle liderando em volume de menções e engajamento. Ainda assim, o enquadramento à direita destacou a resiliência do senador e as falas de aliadas como Bia Kicis, que atribuiu o episódio a 'falácias e narrativas' contra os Bolsonaros e afirmou confiar no apoio feminino à candidatura.
Já a leitura de esquerda, ecoada por militantes petistas, explorou a contradição entre o discurso de Flávio em defesa das mulheres e as acusações de maltrato feitas pela própria madrasta. Petistas passaram a chamar Michelle de 'funcionária do mês', ironizando o desgaste que a crise causa ao principal adversário de Lula. Dirigentes do PT, no entanto, evitaram se pronunciar diretamente e preferiram associar Flávio ao caso Master, que envolve o Banco Master e o empresário Daniel Vorcaro.
O que ainda não se sabe é se Michelle voltará a apoiar publicamente a candidatura do enteado, algo que ela nunca chegou a fazer, e quem será a mulher escolhida como vice na chapa. Também permanece em aberto o real impacto eleitoral do episódio sobre a intenção de voto de Flávio junto ao eleitorado feminino, além do desfecho das tratativas do PL para o palanque no Rio de Janeiro.